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Seis cidadãos americanos foram acusados pela Justiça federal de participar de um esquema de casamentos falsos com imigrantes em situação irregular em Massachusetts. Segundo a Procuradoria Federal do estado, a suposta líder organizava os casamentos havia mais de dez anos e cobrava de US$ 38 mil a US$ 40 mil por casamento. A maioria dos clientes era de brasileiros em busca do green card, de acordo com autoridades federais citadas pelo jornal Boston Globe.
Cinco dos acusados foram presos na manhã de quarta-feira (21), segundo a Procuradoria. A procuradora federal Leah Foley anunciou o caso numa entrevista coletiva em Boston. "O sonho americano não está à venda", disse ela. Os acusados são considerados inocentes até eventual condenação.
Como funcionava o esquema, segundo a acusação
Segundo documentos do tribunal citados pela Procuradoria, a suposta líder, Jennifer Gonzalez, de 43 anos, moradora de Fall River, no sul de Massachusetts, comandava um negócio em que imigrantes em situação irregular pagavam a ela para arranjar um casamento com um cidadão americano. Assim, os "clientes" podiam apresentar documentos falsos ao Serviço de Cidadania e Imigração dos EUA (USCIS) para conseguir status legal.
De acordo com a acusação, Gonzalez pagava outros quatro acusados, todos cidadãos americanos, para se casarem com os clientes. Uma quinta acusada trabalhava como "secretária" do negócio, segundo a Procuradoria.
A Procuradoria afirma que a operação fazia em média de 18 a 20 casamentos por ano. Na coletiva, Foley disse que, "no mínimo", o esquema teria rendido US$ 6 milhões a Gonzalez. Segundo o comunicado, ela orientava os clientes a simular um casamento de verdade, com seguro de vida, conta bancária conjunta e selfies de casal, e dizia que levaria de três a quatro meses para juntar documentos suficientes para o pedido de imigração. Os clientes também costumavam pagar US$ 500 por mês ao "cônjuge", segundo a acusação.
"Eles se casavam, ficavam casados por uns dois anos, três anos, se divorciavam e, um mês depois, se casavam de novo com outro imigrante em situação irregular", disse Foley, segundo a NBC 10. "Era tempo suficiente para não levantar suspeita."

A denúncia de um brasileiro e as gravações
Segundo o Boston Globe, que cita documentos do tribunal, o caso começou com a denúncia de um cliente insatisfeito: um brasileiro que tinha ficado no país além do prazo do visto procurou os investigadores em julho. Ele contou que pagou milhares de dólares a Gonzalez e US$ 500 por mês à "esposa", mas que as duas não apoiaram o pedido de residência dele.
A pedido dos investigadores, o brasileiro apresentou a Gonzalez uma testemunha que fingia ser cliente e gravou os encontros em segredo, segundo o jornal. Pelo comunicado da Procuradoria, Gonzalez teria sido registrada em vídeo e áudio mandando imprimir um contrato disfarçado de "empréstimo" e aceitando uma entrada de US$ 3 mil em dinheiro.
"Estou aqui para você conseguir o sonho americano", teria dito Gonzalez à testemunha, segundo o Globe. Quando a testemunha perguntou o que aconteceria se a "esposa" se apaixonasse, ela respondeu: "Não estamos aqui por amor", de acordo com a declaração juramentada citada pelo jornal. Em outro trecho divulgado pela Procuradoria, ela afirma: "Massachusetts é o melhor lugar para você estar."
Segundo a acusação, Gonzalez usava o dinheiro para comprar negócios e imóveis na República Dominicana, que ela chamava de "o país dela". "Alega-se que a senhora Gonzalez enriqueceu vendendo o sonho americano, enquanto investia o dinheiro em outro país", disse Foley, segundo o Globe. Ela chamou o suposto esquema de "uma afronta" e de "desanimador para quem segue as leis do nosso país" ao pedir a cidadania como cônjuge de um americano, de acordo com o jornal. A Procuradoria também afirma que vários acusados mentiram em pedidos de vale-alimentação (SNAP) de Massachusetts, dizendo que nunca tinham se casado, e que Gonzalez gastou mais de US$ 120 mil do benefício enquanto comandava o esquema.
O que acontece com os clientes brasileiros
Segundo o Boston Globe, as autoridades federais disseram que a maioria dos imigrantes que teriam pago pelos casamentos era de brasileiros que buscavam o green card. Duas fotos divulgadas pela Procuradoria mostram, segundo a acusação, duas das acusadas em casamentos com imigrantes do Brasil, em maio de 2018 e em agosto de 2024.
Não se sabe quantos clientes conseguiram o green card ou a cidadania por meio do esquema, informou o jornal. Nenhum deles foi acusado até agora, mas Foley disse que a investigação continua e que alguns estavam sendo deportados, segundo o Globe.
"Este caso manda um recado claro: o casamento não é uma brecha, não é um atalho", disse Shawn Saucier, chefe regional do USCIS no Nordeste, segundo o jornal.
Quem são os acusados e o que acontece agora
Além de Jennifer Gonzalez, foram acusados, segundo a Procuradoria: Erica Daniels, de 29 anos, Chreise Alejandro, de 39, Amara Pugh, de 31, e Jaylin Hill, de 26, todos de Fall River, e Jessica Tavares, de 31, de Attleboro. Segundo o Globe, Tavares é irmã de Gonzalez. Hill, o único homem do grupo, já cumpre pena numa prisão estadual por um crime com arma de fogo, informou a Procuradoria.
Segundo a Procuradoria, o grupo foi acusado de conspiração para abrigar imigrantes em situação irregular, abrigo de imigrantes em situação irregular, conspiração para cometer fraude de casamento e fraude de casamento; o comunicado não detalha qual acusação recai sobre cada um. As duas primeiras acusações têm pena máxima de 10 anos de prisão cada uma, e as de fraude de casamento, de cinco anos, além de multa de até US$ 250 mil, segundo a Procuradoria.
A pedido da Procuradoria, um juiz federal manteve Gonzalez presa até uma audiência marcada para sexta-feira (23), que vai decidir se ela continua detida até o julgamento, segundo o Globe. Daniels, Alejandro, Pugh e Tavares foram soltas sob compromisso de comparecer à Justiça. Os advogados de Gonzalez e das outras quatro não quiseram comentar as acusações, informou o jornal. Hill deve comparecer à Justiça federal na segunda-feira (26) pelas novas acusações, segundo o Globe.
"Os detalhes do documento de acusação são alegações. Os réus são presumidos inocentes até que se prove a culpa, além de qualquer dúvida razoável, num tribunal", diz o comunicado da Procuradoria.

O que diz a lei
O que a lei federal pune é o casamento feito para burlar as regras de imigração, não o casamento em si:
- Prisão ou multa: quem se casa sabendo que é para driblar a lei de imigração pode pegar até 5 anos de prisão, multa de até US$ 250 mil, ou as duas penas, segundo o Código dos Estados Unidos (título 8, seção 1325).
- Porta fechada para novos pedidos: se o governo concluir que o imigrante tentou obter status por um casamento fraudulento, nenhuma nova petição em favor dele pode ser aprovada, de acordo com a seção 1154 do mesmo título.
A TV Connect também mostrou nesta semana o caso de 28 imigrantes acusados de votar com green card na Califórnia.
Perguntas frequentes
Quantas pessoas foram acusadas?
Seis, segundo a Procuradoria Federal de Massachusetts: cinco de Fall River e uma de Attleboro. Cinco foram presas na quarta-feira (21); a sexta pessoa já estava presa por outro crime.
Quanto a acusação diz que era cobrado por casamento?
De US$ 38 mil a US$ 40 mil, segundo a Procuradoria.
Os brasileiros que pagaram foram acusados?
Não até agora. Segundo o Boston Globe, nenhum cliente foi acusado, mas a procuradora Leah Foley disse que a investigação continua e que alguns estavam sendo deportados.
Os acusados já foram condenados?
Não. As acusações são alegações, e os réus são considerados inocentes até que se prove a culpa na Justiça, como diz o próprio comunicado da Procuradoria.
