Austan Goolsbee, presidente do Federal Reserve de Chicago, fez um alerta direto: interferências políticas e ataques à independência do banco central podem reacender a inflação nos EUA. Em entrevista à CNBC, ele disse que “qualquer coisa que infrinja ou ataque a independência do banco central é uma bagunça” e reforçou: “a inflação pode voltar com força se tentarem tirar a independência do Fed”.
A fala vem em meio a pressões públicas sobre o Fed e sobre o presidente do banco, Jerome Powell, que recentemente confirmou ter sido intimado pelo Departamento de Justiça em investigação sobre o projeto bilionário de reforma da sede em Washington, D.C. O custo da obra, que teve estouros de orçamento, virou ponto de atrito entre o Fed e a Casa Branca e levantou hipótese de ação criminal envolvendo Powell.
Independência do Fed no centro do debate
Goolsbee evitou comentar o mérito jurídico do caso, mas apoiou a declaração de Powell de que questionamentos sobre a obra podem ser usados como pretexto para influenciar decisões de juros. “Se você está investigando como pretexto porque discorda das decisões de taxa, isso é uma bagunça. Não deveríamos estar nesse lugar”, disse.
O tema esbarra em um histórico recente: o ex-presidente Donald Trump tem sido crítico de Powell e tem defendido juros bem mais baixos. Powell, apelidado por Trump de “Too Late”, conduziu três cortes na taxa básica desde setembro de 2025, mas mantém o discurso de cautela para consolidar a queda da inflação. O mandato de Powell como chair termina em maio; ele pode permanecer como diretor até 2028.
Para Goolsbee, a independência é condição para o Fed cumprir sua missão de estabilizar preços e promover emprego máximo. Ele citou exemplos internacionais para ilustrar riscos quando bancos centrais sofrem ingerência política: “Houve países com investigações criminais sobre seus bancos centrais — Zimbábue, Rússia, Turquia — e não são economias tipicamente classificadas como avançadas.”
Por que isso importa para brasileiros nos EUA
A independência do Fed impacta diretamente juros, inflação e dólar. Qualquer percepção de interferência pode elevar a incerteza, mexer nos mercados e pressionar o câmbio. Para brasileiros que vivem ou investem nos EUA, efeitos possíveis incluem:
– crédito mais caro ou mais barato em hipotecas, carros e cartões, conforme o mercado reprecifica risco;
– volatilidade do dólar, que afeta remessas, viagens e investimentos;
– oscilação nas bolsas e em ativos atrelados à inflação.
No pano de fundo, Goolsbee tem histórico ligado ao Partido Democrata — foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos no governo Barack Obama e assessorou a campanha de Joe Biden em 2020. Ele frisou, porém, que ao entrar no Fed “saiu do negócio das eleições”, destacando o compromisso institucional com decisões técnicas. Em avaliações anteriores, Goolsbee chegou a classificar Powell como “Hall da Fama” por ter derrubado a inflação sem provocar recessão.
O recado central: preservar a autonomia do Fed é visto por seus dirigentes como peça-chave para manter a inflação sob controle e evitar choques de credibilidade. Em um ambiente de pressões políticas e investigações, a linha entre fiscalização legítima e interferência indevida vira ponto sensível — com reflexos que podem ir do bolso do consumidor ao humor de Wall Street.
