Companhias aéreas economizarão muito dinheiro com combustível à medida que novas pílulas para perda de peso ganham popularidade, diz Wall Street

Gabriel Piziolo
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Analistas de Wall Street apontam um efeito colateral econômico da onda de medicamentos para perda de peso nos EUA: a redução dos gastos com combustível das companhias aéreas. Com a chegada da primeira pílula de GLP-1 para obesidade — e a expectativa de aprovação de concorrentes nos próximos meses — a adoção em massa desses tratamentos pode diminuir o peso médio dos passageiros e, por consequência, baixar o consumo de combustível, hoje o maior custo operacional do setor.

Como o peso dos passageiros impacta o caixa

Segundo o banco Jefferies, uma queda de 10% no peso médio dos passageiros pode gerar até 2% de redução no peso total de uma aeronave, derrubar em até 1,5% a conta de combustível e elevar o lucro por ação (EPS) das empresas aéreas em até 4%. A lógica é direta: menos peso exige menos combustível para decolagem e cruzeiro, efeito que se acumula em milhares de voos por ano.

A indústria já trata peso como prioridade. Fabricantes como a Boeing enfatizam que a eficiência de combustível responde diretamente ao peso total na decolagem. No 737 Max 8, por exemplo, o peso operacional vazio é de cerca de 99 mil libras, com capacidade para aproximadamente 46 mil libras de combustível e 36 mil de carga útil. Em uma configuração de 178 passageiros, com média de 180 libras cada, os ocupantes somam perto de 32 mil libras. Se o peso médio cair 10%, a redução de 3,2 mil libras representa cerca de 2% do peso máximo de decolagem — suficiente para economias relevantes de combustível.

Em 2018, a United trocou o papel da revista de bordo para uma versão mais leve, cortando cerca de 28 gramas por exemplar e economizando 170 mil galões de combustível por ano, sinal de como pequenos cortes de peso geram ganhos reais.

Quanto as grandes aéreas podem ganhar

Jefferies projeta que American Airlines, Delta, United e Southwest consumirão, juntas, cerca de 16 bilhões de galões de combustível em 2026, a um preço médio de US$ 2,41 por galão. A fatura combinada chegaria a quase US$ 39 bilhões — cerca de 19% das despesas operacionais.

Com a premissa de que 1% a menos de peso melhora a eficiência em 0,75%, uma redução de 2% no peso médio dos passageiros poderia adicionar aproximadamente 4% ao lucro por ação do setor. Em números, isso significaria um potencial de alta de 2,8% no EPS da Delta, 3,5% na United, 4,2% na Southwest e até 11,7% na American, que é mais sensível ao custo de combustível.

Pílulas ampliam a base de usuários

O gatilho é a mudança no formato dos tratamentos. A primeira pílula de GLP-1 para obesidade, da Novo Nordisk, já está disponível nos EUA. Um produto semelhante da Eli Lilly aguarda aprovação, esperada para os próximos meses. Ao eliminar a necessidade de injeções, as pílulas tendem a atrair pacientes de primeira viagem, ampliando a adoção e, potencialmente, o impacto macro sobre o peso médio da população.

Para o público brasileiro nos EUA, a tendência pode significar tarifas mais estáveis no longo prazo, em um setor exposto à volatilidade do combustível. Ainda assim, os efeitos dependem de uma adesão ampla e sustentada aos medicamentos, do preço do combustível e de estratégias individuais de frota e rotas.

Resumo: menos peso a bordo, menos combustível queimado. Se a popularização das pílulas de GLP-1 confirmar a tese de Wall Street, as grandes aéreas americanas podem ganhar eficiência e melhorar resultados — um movimento que o mercado já começa a monitorar.

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