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A proibição das casas de apostas online no Brasil, determinada pelo governo federal, colocou clubes de futebol na mesma posição das bets na disputa contra o banimento e deve obrigar os times a remodelar sua gestão financeira diante de um impacto considerado de difícil recuperação no curto prazo, segundo analistas e representantes das equipes ouvidos pela CNN Brasil.
A medida é tratada pelo governo como resposta a um problema de saúde pública e tem apoio majoritário da população: uma pesquisa Quaest divulgada recentemente mostrou que 62% dos brasileiros são favoráveis à restrição das apostas online no país, contra 32% que se posicionam contra e 6% que não souberam responder.
Clubes afetados classificaram a proibição como uma ameaça ao que chamaram de "fim do futebol brasileiro", argumento rebatido publicamente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Nos melhores momentos da história do futebol brasileiro não existiam bets. Os clubes que se virem, nós já aprovamos a lei que os clubes podem virar empresa, agora é preciso colocar gente de competência para administrar a empresa", disse Lula nesta semana, segundo a reportagem.
O que diz a medida provisória
A medida provisória assinada pelo presidente na última sexta-feira, poucos dias antes do primeiro turno eleitoral, proíbe a operação das bets, que nos últimos anos passaram a financiar fortemente o futebol brasileiro. O texto veda imediatamente novos aportes por apostadores e exige que todos os sites e aplicativos de apostas saiam do ar no país a partir de 6 de outubro.
Por se tratar de medida provisória, a norma já tem validade, mas depende de posterior aprovação do Congresso Nacional, onde bets e clubes afirmam que vão atuar para derrubar ou alterar o texto. Casas de apostas online já recorreram ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a proibição, alegando ausência de urgência que justificasse a edição da medida pelo governo.
Uma reunião convocada pelo governo para ouvir as demandas dos clubes, prevista para terça-feira, foi adiada sem nova data definida. Segundo uma fonte de um dos ministérios envolvidos no debate, eventuais ações de apoio ao setor, como uma linha de crédito subsidiada, só serão consideradas depois desse diálogo.
Bilhão em receita em risco
Os times da Série A do Campeonato Brasileiro receberam R$ 1 bilhão em receitas diretas de publicidade das casas de apostas online em 2025, alta de 67% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da consultoria Convocados em parceria com a gestora de investimentos em esportes Outfield.
Esse montante representa quase 10% do faturamento recorrente total dos clubes, de acordo com o economista Cesar Grafietti, consultor de gestão e finanças do esporte responsável pelo estudo. Ele destacou que a perda real tende a ser ainda maior, já que outras receitas também dependem fortemente das bets, como anúncios nos estádios e cotas de transmissão dos jogos.
Segundo Grafietti, os clubes serão forçados a buscar alternativas para cobrir o rombo no curto prazo, o que deve incluir não apenas corte de investimentos, mas também renegociações comerciais em posição de maior fragilidade. "Começa a ter uma reação em cadeia: você é obrigado a vender jogadores e os valores começam a cair, jogadores com contratos a serem renovados podem permanecer com salários menores, e as contratações tendem a não acontecer com os valores que temos visto", afirmou o economista, que no entanto espera uma recuperação financeira dos clubes no médio prazo, com redução de custos combinada a parcerias alternativas, ainda que em volume menor do que o gerado pelas bets.
Flamengo recorre ao STF
Federações estaduais de futebol, incluindo as de São Paulo e do Rio de Janeiro, assinaram na semana passada uma carta classificando a proibição como "um golpe fatal para o futebol brasileiro" e alertando que a medida poderia levar clubes à insolvência. "O torcedor não pode pagar essa conta. Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é quem acaba", diz o documento.
Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), entidade que representa empresas de aposta, afirmou que a proibição foi implementada de forma abrupta, sem prazo de adaptação, interrompendo um diálogo que vinha sendo construído entre empresas e governo para aprimorar a regulação do setor. Ele também apontou que parte dos recursos arrecadados com a tributação das bets tem destinação obrigatória para áreas como o Ministério do Esporte e comitês esportivos: cerca de R$ 174 milhões foram previstos para o futebol entre janeiro e julho deste ano, segundo o Escritório Nacional de Rateio, associação que centraliza a distribuição desses valores.
O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, disse a jornalistas que o impacto nas receitas do clube pode chegar a R$ 400 milhões em 2027, somando efeitos diretos e indiretos. "Isso por si só faz com que o Flamengo não consiga honrar os compromissos que assumiu para o ano que vem", afirmou o dirigente. O clube carioca ingressou no STF na terça-feira com um pedido para reforçar o processo contra a medida do governo, alegando "prejuízo certo, imediato, quantificado e irreversível" e pedindo decisão em até uma semana, antes da proibição total entrar em vigor.
Mercado já se movimenta
Mantida a proibição, os clubes deverão buscar novas parcerias comerciais para tentar compensar parte das perdas. Alguns setores já tratam o cenário como oportunidade: em publicação nas redes sociais, o CEO da farmacêutica Cimed, João Adibe Marques, comentou a proibição das bets e afirmou que "essa é a nossa chance, a gente sempre teve o sonho de patrocinar todos os clubes do Brasil".
