Subtítulo: Estoque de urânio enriquecido, perda de controle e possível desvio de material estão no radar de agências internacionais e especialistas
h2 O que está acontecendo
A escalada de tensão entre Estados Unidos e Irã, após a repressão violenta a protestos em território iraniano, reacendeu o alerta para riscos nucleares. Analistas apontam que um cenário de instabilidade interna pode comprometer a segurança do programa nuclear de Teerã e abrir brechas para desvio, roubo ou uso indevido de material sensível.
Nos últimos dias, o presidente dos EUA, Donald Trump, evitou um ataque militar direto, mas pediu publicamente o fim do quase 40 anos de liderança do aiatolá Ali Khamenei. A declaração veio após Khamenei chamar Trump de “criminoso” por apoiar os manifestantes e atribuir aos protestos milhares de mortes. Em paralelo, um porta-aviões americano deixou o Mar do Sul da China, cruzou Cingapura e entrou no Estreito de Malaca — rota que pode levá-lo ao Oriente Médio.
O foco de preocupação é o estoque iraniano de urânio enriquecido. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o Irã mantém 440,9 kg de urânio enriquecido a até 60% — a um passo técnico do nível de 90% usado em armas. A agência informou em novembro que perdeu a “continuidade de conhecimento” sobre parte desse material após a guerra de 12 dias em junho, quando os EUA bombardearam instalações em meio à ofensiva lançada por Israel contra a República Islâmica. Um diplomata próximo à AIEA disse que o Irã ainda não detalhou a situação nem o paradeiro do estoque de alto enriquecimento.
h2 Onde está o risco
David Albright, ex-inspetor de armas no Iraque e fundador do Institute for Science and International Security, alerta que, com caos interno, o regime pode “perder a capacidade de proteger seus ativos nucleares”. Ele classifica o urânio altamente enriquecido como o “mais preocupante” e lembra precedentes: após o colapso da União Soviética, houve extravio de urânio e plutônio por falhas de segurança.
Albright estima que o estoque iraniano de alto enriquecimento caiba em 18 a 20 cilindros de cerca de 50 kg cada, fáceis de transportar. Kelsey Davenport, diretora de não proliferação da Arms Control Association, avalia que o material poderia ser desviado para um programa clandestino ou capturado por facções do próprio governo ou militares em busca de capacidade de arma. Em caso de colapso, parte poderia ser contrabandeada ou vendida a atores não estatais.
Eric Brewer, ex-analista de inteligência dos EUA e hoje na Nuclear Threat Initiative, afirma que, embora uma arma feita com urânio a 60% seja tecnicamente possível, exigiria mais material, resultando em dispositivo maior e menos adequado para mísseis — mas ainda utilizável em uma detonação terrestre. Ele pondera que informações indicam que o estoque de alto enriquecimento “permanece enterrado em um túnel” após ataques dos EUA, com acesso difícil sem risco de novas investidas americanas ou israelenses. Também observa que o líder supremo impõe “barra alta” para qualquer passo rumo à arma.
h2 O que mais está em jogo
Em cenário de instabilidade, a usina nuclear de Bushehr — único reator comercial do Irã, abastecido com combustível russo — poderia virar alvo de sabotagem para causar impacto político. Albright cita o ataque de 1982 do braço armado do Congresso Nacional Africano à central de Koeberg, na África do Sul, que causou danos sem liberar radiação. No caso de um acidente grave em Bushehr, ventos poderiam levar a contaminação em 12 a 15 horas aos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Omã.
Até aqui, não há sinais de o Irã ter perdido comando sobre suas forças de segurança. Mas a combinação de pressão interna, retórica em alta entre Teerã e Washington e menor visibilidade internacional sobre estoques sensíveis mantém o risco no radar. Para brasileiros nos EUA, o tema impacta segurança regional, mercados de energia, rotas aéreas e volatilidade cambial — fatores que influenciam custo de vida, viagens e negócios.

