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Hubble flagra decágono, forma inédita de 10 lados, no polo sul de Saturno

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O Telescópio Espacial Hubble, da NASA, identificou uma gigantesca onda atmosférica de dez lados encobrindo o polo sul de Saturno. É a primeira vez que os cientistas observam um padrão tão regular e definido de correntes de jato nessa região do planeta. A estrutura, batizada de decágono, lembra o famoso hexágono que existe há décadas no polo norte de Saturno, mas apresenta características próprias que sugerem tratar-se de um fenômeno atmosférico novo em formação.

Os resultados do estudo foram publicados na quarta-feira na revista científica Science Advances. Segundo os pesquisadores, ao reunir anos de observações do Hubble, foi possível perceber que a estrutura já dava sinais sutis de sua formação antes de se tornar um padrão claramente definido.

Um fenômeno que ainda está se formando

As imagens que permitiram o achado fazem parte do programa Outer Planet Atmospheres Legacy (OPAL), iniciativa do Hubble que fotografa anualmente os planetas mais distantes do Sistema Solar há mais de uma década.

Amy Simon, coautora do estudo e principal pesquisadora do programa OPAL no Centro Goddard de Voo Espacial da NASA, em Greenbelt, Maryland, afirmou que nunca havia sido vista uma estrutura assim no hemisfério sul de Saturno. Segundo ela, o hexágono do norte está presente em todas as observações feitas há mais de 40 anos, enquanto o novo padrão parece estar se fortalecendo, o que oferece a rara chance de acompanhar o desenvolvimento de uma grande formação atmosférica em tempo real.

A descoberta só foi possível porque a mudança das estações em Saturno trouxe gradualmente o polo sul do planeta de volta ao campo de visão da Terra. Foi assim que astrônomos que analisam coletivamente imagens de observatórios terrestres identificaram pela primeira vez indícios da estrutura.

Da observação amadora ao Hubble

Agustín Sánchez-Lavega, autor principal do novo estudo e pesquisador da Universidade do País Basco, na Espanha, lidera um site chamado Planetary Virtual Observatory Laboratory, que recebe imagens de planetas do Sistema Solar enviadas por observadores do mundo todo. Foi nessas imagens, ainda em 2024, que Sánchez-Lavega e os astrônomos amadores Trevor Barry e Jean-Paul Oger notaram pela primeira vez uma sutil ondulação ao longo do polo sul. Imagens adicionais captadas da Terra em 2025 reforçaram ainda mais os indícios dessa estrutura de dez lados.

Foi nesse momento que as observações do Hubble entraram em cena. A visão do telescópio a partir do espaço oferece nitidez e resolução espacial sem o borrão causado pela atmosfera terrestre, permitindo observar rotações completas de Saturno com muito mais detalhe.

Sánchez-Lavega explicou que, dada a simetria do sistema de correntes de jato entre os polos norte e sul de Saturno, os cientistas já buscavam um equivalente ao hexágono do norte no polo sul em imagens do Hubble desde 1990. Segundo ele, nem mesmo as imagens da sonda Cassini, da NASA, que orbitou Saturno entre 2004 e 2017, mostraram qualquer indício de uma formação duradoura como essa. Os dados do Hubble confirmaram a presença da estrutura desde 2023.

Estrutura atravessa várias camadas da atmosfera

De acordo com o estudo, a onda está localizada dentro de uma das poderosas correntes de jato de Saturno e se estende por múltiplas camadas da atmosfera do planeta, o que indica que não se trata apenas de uma característica das nuvens superficiais, mas de uma estrutura que se prolonga verticalmente. A posição aparente do decágono varia ligeiramente porque o Hubble capta imagens em diferentes comprimentos de onda, e cada um deles permite observar altitudes distintas da atmosfera saturnina.

Simon destacou que o aspecto mais intrigante é o fato de a estrutura parecer ter se formado recentemente, o que levanta a questão de por que ela surgiu agora, já que nunca havia sido observada antes.

Os autores do estudo afirmam que serão necessárias novas observações do Hubble e do Telescópio Espacial James Webb, da NASA, além de análises com modelos computacionais, para entender como o decágono se formou, quanto tempo pode durar e como ele se compara ao hexágono de longa duração observado no norte.

Décadas de observação revelam mudanças no tempo

A longa vida útil do Hubble, em operação há mais de três décadas, permite aos astrônomos acompanhar mudanças ao longo do tempo em planetas do Sistema Solar e outros objetos astronômicos. Em vez de fornecer apenas um retrato isolado, o programa OPAL possibilita seguir mudanças sazonais, acompanhar tempestades de curta duração e identificar outras características atmosféricas que evoluem lentamente.

Mike Wong, coautor do estudo e pesquisador da Universidade da Califórnia em Berkeley, disse que, quando o programa OPAL começou, os cientistas esperavam surpresas interessantes, mas não sabiam exatamente o que encontrariam. Segundo ele, muitas das descobertas do programa não vêm de uma única observação, mas do acúmulo de anos de dados, e observações regulares ao longo do tempo têm permitido uma série de novos achados.

A equipe planeja continuar observando Saturno para determinar se o decágono vai se estabilizar em uma configuração duradoura, como o hexágono do norte, ou se continuará evoluindo. Novas observações também podem ajudar os cientistas a entender o que impulsiona essa onda atmosférica, o que ela revela sobre a dinâmica atmosférica de planetas gigantes no Sistema Solar e como esses fenômenos podem se relacionar com processos observados na Terra.

O Hubble é um projeto de cooperação internacional entre a NASA e a Agência Espacial Europeia (ESA). O Centro Goddard de Voo Espacial da NASA, em Greenbelt, Maryland, administra o telescópio e as operações da missão, com apoio da Lockheed Martin Space. O Space Telescope Science Institute, em Baltimore, conduz as operações científicas do Hubble para a NASA.

Fonte original: science.nasa.gov

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