Departamento de Trabalho acusado de ecoar slogan nazista em postagem nas redes sociais

Gabriel Piziolo
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O Departamento do Trabalho dos EUA enfrenta críticas por um vídeo publicado no X com a frase: “Uma Pátria. Um Povo. Uma Herança. Lembre-se de quem você é, americano.” A mensagem foi apontada por usuários e pesquisadores como semelhante ao slogan nazista “Ein Volk, ein Reich, ein Führer” (“Um povo, um país, um líder”), usado por Hitler e pelo Partido Nazista, segundo o United States Holocaust Memorial Museum.

Post viral acende alerta em série de mensagens oficiais

O vídeo, publicado no sábado, exibe uma montagem rápida de obras exaltando cenas da história americana, em primeiro plano com uma estátua de George Washington. O conteúdo viralizou e somou quase 23 milhões de visualizações no X.

Especialistas em extremismo afirmam que o post não é um caso isolado. Bill Braniff, diretor do Polarization & Extremism Research & Innovation Lab da American University, disse que, no contexto de outras publicações, “não é acidente”. Jon Lewis, pesquisador do Program on Extremism da George Washington University, afirmou que, em dado momento, “deixa de ser um ‘código’ e vira um apito explícito”.

A pasta, liderada pela secretária Lori Chavez-DeRemer, não respondeu a pedido de comentário da CNBC. Em nota anterior, um porta-voz disse que “a campanha nas redes foi criada para celebrar os trabalhadores americanos e o Sonho Americano”. Centrais sindicais criticaram o post; a National Nurses United chamou o conteúdo de “propaganda fascista” em entrevista ao The Guardian.

Acusações envolvem Casa Branca, DHS e ICE

Críticos apontam que contas oficiais do governo têm usado frases e imagens associadas a movimentos ultranacionalistas ou supremacistas. Exemplos citados:

– Casa Branca: postou um desenho com duas rotas para a Groenlândia — “Which way, Greenland man?” — visto como eco de “Which Way Western Man?”, título de livro de 1978 associado a ideologias neonazistas.
– DHS/ICE: cinco meses antes, o Departamento de Segurança Interna divulgou peça de recrutamento com “Which way, American man?”. Na última semana, contas oficiais publicaram “We’ll have our home again”, frase relacionada a canção citada por museu do Holocausto de Toronto por vínculos a grupo neonazista dos EUA.
– Departamento do Trabalho: em 8 de janeiro, publicou foto de Trump com a frase “trust the plan”, expressão recorrente entre seguidores do QAnon. A pasta também vem postando pinturas históricas com mensagens cristãs e imagens “com aparência de IA” retratando majoritariamente homens brancos.

A Casa Branca rejeitou as críticas. A porta-voz Abigail Jackson disse à CNBC que a “mídia mainstream virou seu próprio meme”, acusando “a esquerda” de rotular como “nazista” tudo que não gosta. Tricia McLaughlin, secretária-assistente do DHS, classificou questionamentos sobre os posts como “indignação fabricada” e disse que expressões semelhantes existem em vários poemas, músicas e livros.

Engajamento alto e debate sobre a linha editorial do governo

O Southern Poverty Law Center observou que a guinada ficou mais visível desde junho passado, quando o DHS compartilhou um cartaz do Tio Sam pedindo para “reportar todos os invasores estrangeiros” ao ICE. Pesquisadores dizem que a recorrência, o imaginário de cartazes de guerra e a estética de “Americana” reforçam um padrão. A família de Norman Rockwell já acusou o DHS de “uso indevido” da obra do artista para fins contrários a imigrantes e pessoas não brancas.

Para a comunidade brasileira nos EUA, o caso expõe a temperatura do debate público e o impacto de mensagens oficiais no clima social, especialmente em temas de imigração, identidade nacional e políticas de segurança. Enquanto o governo defende as peças como celebração do patriotismo e recrutamento, críticos alertam para a normalização de símbolos e frases associados a extremismo.

O post do Departamento do Trabalho segue no ar e domina a atenção nas redes, em meio a pedidos de esclarecimentos e pressões por ajustes na comunicação oficial.

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