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O Nubank começou nesta quinta-feira (10) a operar nos Estados Unidos, considerado o maior e mais competitivo mercado de serviços financeiros do mundo. O anúncio foi feito pelo fundador e CEO global David Vélez durante evento no Nu Stadium, em Miami, treze anos depois de a empresa ter sido criada em uma casa no bairro do Brooklin, na zona sul de São Paulo.
Além dos Estados Unidos, a instituição também passou a atuar em mais 35 países da Europa e da América Latina, por meio de uma nova plataforma global batizada de Nu Global. O anúncio foi feito a um público de cerca de 200 pessoas, entre elas 60 jornalistas dos Estados Unidos e da América Latina reunidos pelo Nubank em Miami, e transmitido ao vivo para clientes e colaboradores.
"Após provar essa hipótese com mais de 140 milhões de clientes, estamos entusiasmados para começar a executar nossa tese além de nossa região de origem", disse Vélez durante o evento. Segundo ele, o movimento é "o primeiro marco de uma jornada de várias décadas para posicionar o Nu como o principal banco digital do mundo".
Antes da chegada aos Estados Unidos, o Nubank já operava há seis anos no México e na Colômbia, além do Brasil, onde nasceu. Nos últimos meses, a empresa deu sinais mais claros de que pretendia expandir sua atuação para além da América Latina: a cofundadora Cristina Junqueira se mudou para os Estados Unidos com a família, e o Nubank passou a patrocinar equipes de destaque internacional, como o Inter de Miami, de Lionel Messi, e a escuderia Mercedes, na Fórmula 1.
Conta gratuita e remessas internacionais nos EUA
No mercado americano, onde o setor de bancos de varejo movimenta cerca de US$ 1,2 trilhão por ano, o Nubank adotou uma estratégia de entrada diferente da usada no Brasil, no México e na Colômbia. Em vez de focar em um único produto, a empresa lançou de uma vez um pacote de serviços que inclui conta, cartão, pagamento de contas e transferências locais e internacionais de dinheiro, todos sem cobrança de tarifas.
O saldo mantido na conta corrente renderá 3,5% ao ano, percentual que pode chegar a 4,5% para clientes dispostos a manter até US$ 10 mil aplicados. O cartão de crédito, da bandeira Mastercard, oferece cashback de 1,5% sobre todas as compras.
O serviço apontado como principal diferencial da operação americana são as remessas internacionais gratuitas, com transferências que devem ser concluídas em poucos minutos. Inicialmente, esse serviço ficará restrito a Brasil, México e Colômbia, países onde o Nubank já atua, mas a empresa informou que pretende ampliar a lista de destinos em breve. De acordo com dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) citados pela reportagem, o México é o maior recebedor de remessas da América Latina e o segundo maior do mundo, atrás apenas da Índia.
Para Cristina Junqueira, CEO do Nu US, as remessas devem atrair as comunidades brasileira e latina nos Estados Unidos, mas a meta da empresa vai além. "Capturar mesmo que uma pequena fatia do mercado americano será transformador para o nosso negócio", afirmou a executiva durante o evento em Miami.
Nos Estados Unidos, o Nubank vai concorrer tanto com bancos tradicionais quanto com fintechs e bancos digitais já consolidados, como Ally, Chime, SoFi e Revolut. Sem um sistema equivalente ao Pix brasileiro, os consumidores americanos já utilizam serviços como Venmo, Zelle e PayPal para transferências.
Para operar no país, o Nubank está usando a infraestrutura do banco americano Lead Bank, um dos principais provedores de Banking as a Service (BaaS) dos Estados Unidos, que também atende clientes como Stripe, Revolut e a carteira digital do Walmart, a One Pay. A empresa já obteve aprovação de um dos reguladores do país, o OCC, para seu pedido de licença bancária nacional, mas ainda aguarda o aval do Federal Reserve e do FDIC.
Nu Global usa moedas digitais para transferências entre países
Paralelamente ao início das operações nos Estados Unidos, o Nubank lançou o Nu Global, plataforma internacional baseada em moedas digitais. "A entrada nos Estados Unidos é um passo estratégico para o Nu. Mas construir uma plataforma global também significa olhar para problemas que são universais", disse Vélez, citando a movimentação de dinheiro entre fronteiras como um desses desafios.
Segundo dados da própria instituição, mais de 300 milhões de pessoas vivem e trabalham cruzando fronteiras todos os anos, movimentando cerca de US$ 800 bilhões, conforme números do Banco Mundial referentes a 2025, e pagando em média 6% desse total em taxas e spreads cambiais.
O Nu Global oferece contas multimoedas em USDC, stablecoin atrelada ao dólar, e em EURC, versão digital do euro, permitindo transferências entre 35 países da Europa e da América Latina. Segundo o Nubank, as operações levam minutos e são processadas a partir de uma infraestrutura instalada na Suíça. Os clientes também terão acesso a um cartão virtual Mastercard para compras.
Os recursos mantidos em USDC renderão 3,5% ao ano, enquanto os valores em EURC terão rentabilidade de 2,2% ao ano. Assim como as remessas da operação americana, o Nu Global não cobrará tarifas nas transferências, o que permitirá, por exemplo, enviar dinheiro da França para a Argentina sem custos. Por enquanto, Brasil, Colômbia e México não fazem parte desse serviço específico.
Desafios regulatórios e concorrência mais acirrada
Vélez reconheceu que a expansão internacional representa um desafio significativo. Segundo ele, o mercado bancário de varejo nos Estados Unidos é muito menos concentrado do que os do Brasil, México e Colômbia, com mais concorrentes e custos de marketing mais altos.
A reportagem lembra que a Revolut, hoje considerada o banco digital mais valioso do mundo, tenta ganhar tração no mercado americano desde 2020, que a Chime levou mais de uma década para consolidar sua posição, e que a britânica Monzo desistiu recentemente de operar nos Estados Unidos.
O Nubank afirma acreditar que seus custos operacionais, 85% menores que os dos bancos tradicionais nos mercados em que já atua, somados ao foco na experiência do usuário, serão vantagens competitivas relevantes na disputa pelo mercado americano.
Analistas de instituições como JP Morgan e Citi apontam como ponto de atenção o risco de dispersão que a entrada em novos mercados pode causar, especialmente em um momento em que as operações no Brasil, no México e na Colômbia ainda estão em processo de crescimento, com novas ofertas de produtos e o desafio de ampliar a receita por usuário. Em entrevistas, Vélez afirma que a empresa mantém uma cultura de priorização e de recusar iniciativas que fujam do foco estratégico.
A expansão também esbarra em desafios regulatórios distintos em cada país. Nos Estados Unidos, o Nubank ainda aguarda aprovações para se tornar banco. No México, onde já é a maior instituição digital do país, com 16 milhões de clientes, passou a operar como banco no mês passado. No Brasil, comprou em julho o banco Porto Real de Investimentos, negócio que dará à empresa a licença necessária para usar o termo "Bank" no nome, mas que ainda depende de aprovação do Banco Central. Na Colômbia, o Nubank segue operando como companhia de financiamento.
A empresa também anunciou recentemente seus resultados do segundo trimestre, com lucro recorde de US$ 1,06 bilhão, alta de 49% em relação ao mesmo período do ano anterior. O retorno sobre o patrimônio (ROE) foi de 33%, patamar acima do registrado por instituições como BTG Pactual (26,7%), Itaú Unibanco (24,3%), Bradesco (16,2%), Santander Brasil (12,5%) e Banco do Brasil (8,3%).
