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Levantamento obtido pelo Deportation Data Project revela que mais da metade das pessoas presas pelo Immigration and Customs Enforcement (ICE) nos Estados Unidos não tinha qualquer histórico criminal. Segundo os dados, 55% dos detidos nunca haviam tido interação com a Justiça, enquanto outros 24% haviam enfrentado acusações, mas nunca foram condenados.
Os números contradizem o discurso repetido pelo governo do presidente Donald Trump de que as operações de imigração mirariam prioritariamente os chamados "piores dos piores", ou seja, pessoas com antecedentes criminais graves.
O ICE bateu recordes de prisões durante a atual gestão Trump, com dois meses seguidos, julho e agosto, ultrapassando 50 mil detenções. O aumento expressivo, no entanto, tem sido acompanhado por um número cada vez maior de imigrantes sem qualquer envolvimento com crimes entre os detidos.
Mensagens contraditórias do governo
O Departamento de Segurança Interna (DHS) tem apresentado informações conflitantes sobre a real prioridade das operações. Em publicações na rede social X, o órgão afirma que 70% dos presos pelo ICE têm antecedentes criminais, número que, segundo Aaron Reichlin-Melnick, membro sênior do American Immigration Council, não corresponde à realidade desde maio de 2025, de acordo com dados divulgados pelo próprio DHS.
Em entrevistas, porém, autoridades do governo têm adotado um discurso diferente. O secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, disse ao programa "The Ingraham Angle" que o histórico criminal do imigrante é irrelevante para as operações, já que a entrada irregular no país já configuraria, na visão dele, motivo suficiente para a deportação.
Já o "czar da fronteira", Tom Homan, reconheceu em julho, também durante aparição no mesmo programa, que pouco mais da metade das pessoas presas tem antecedentes criminais, ou seja, cerca de metade não tem. Ele afirmou que, com recursos adicionais obtidos por meio de projeto orçamentário aprovado no Congresso, os números devem mudar ainda neste ano.
Alvos mais fáceis de localizar
De acordo com Reichlin-Melnick, o crescimento nas prisões de pessoas sem antecedentes criminais reflete também uma mudança de estratégia: o ICE tem intensificado ações contra imigrantes que já estão em processos migratórios em andamento, como pedidos de asilo pendentes ou solicitações de ajuste de status, incluindo detenções em aeroportos.
Segundo ele, essas pessoas se tornaram alvos mais simples de localizar justamente por já serem conhecidas pelo governo, informarem seus endereços e cumprirem as exigências legais impostas a elas, mesmo enquanto aguardam a análise de seus casos pelas autoridades.
David Bier, diretor de estudos de imigração do Cato Institute, atribuiu o salto nas prisões à combinação de diferentes táticas de fiscalização atuando simultaneamente: abordagens em vias públicas, comparecimentos obrigatórios de imigrantes, audiências em tribunais de imigração e prisões em aeroportos. Segundo Bier, a chegada de Mullin ao comando do DHS coincidiu com a liberação de novos recursos financeiros, incluindo pagamento de horas extras em grande volume às equipes de fiscalização.
Bier também destacou o aumento no número de prisões de pessoas que ainda não têm uma ordem final de remoção, decisão emitida por um juiz de imigração determinando a deportação. Segundo ele, essas pessoas permanecem detidas enquanto seguem contestando seus casos, e a tendência é de que a maioria das deportações deixe de se basear em ordens finais de remoção.
A deputada democrata Pramila Jayapal, principal integrante da minoria na subcomissão de imigração da Comissão Judiciária da Câmara, afirmou que a atual abordagem, mais discreta do que as operações amplamente divulgadas conduzidas na gestão da ex-secretária de Segurança Interna Kristi Noem, é uma tentativa de evitar a repercussão negativa gerada anteriormente. Segundo ela, o objetivo do governo seria simplesmente atingir metas numéricas de prisões, independentemente de quem seja detido.
Reações entre republicanos
O aumento nas detenções de pessoas sem antecedentes criminais tem gerado desconforto até entre parlamentares republicanos. A deputada Maria Elvira Salazar, da Flórida, cujo distrito tem mais da metade da população nascida fora dos Estados Unidos, afirmou que o governo não deveria confundir criminosos com trabalhadores comuns, citando como exemplo o contraste entre um "bandido" e um jardineiro ou entre um traficante e uma babá.
Salazar, que é autora do chamado Dignity Act, projeto que busca criar caminhos para regularização de imigrantes sem status legal, disse que o governo tem ignorado a contribuição econômica de trabalhadores sem antecedentes criminais que atuam há anos nos setores de construção, hotelaria, agricultura, saúde e manufatura nos Estados Unidos.
O deputado republicano Mario Diaz-Balart, também da Flórida, declarou apoio ao Status de Proteção Temporária (TPS) para venezuelanos e haitianos, programa que impede a deportação de imigrantes para países considerados perigosos. Ele afirmou que, embora o reforço no controle de fronteira tenha sido necessário e positivo para a segurança do país, parte da fiscalização de imigração tem representado um excesso, defendendo que casos específicos sejam analisados considerando suas particularidades.
