Machado da Venezuela diz que apresentou seu Prêmio Nobel da Paz a Trump durante a reunião deles

Gabriel Piziolo
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Subtítulo: Encontro ocorre em meio à transição política na Venezuela e à aproximação dos EUA com o governo interino de Delcy Rodríguez

A líder opositora venezuelana María Corina Machado afirmou que entregou sua medalha do Prêmio Nobel da Paz ao ex-presidente Donald Trump durante reunião na Casa Branca, na quinta-feira. O Instituto Nobel, porém, declarou que a honraria não pode ser transferida, indicando que o gesto tem caráter simbólico.

Trump confirmou nas redes sociais que Machado deixou a medalha para ele “guardar” e chamou o encontro de “honra”. Uma foto divulgada pela Casa Branca mostra Trump no Salão Oval segurando a medalha emoldurada, com uma dedicatória: “Símbolo pessoal de gratidão em nome do povo venezuelano pelo papel decisivo do presidente Trump na busca por uma Venezuela livre”.

Reunião cordial, sem compromissos claros

Após a conversa privada, Machado disse a jornalistas que a entrega foi um reconhecimento ao “compromisso” de Trump com a liberdade na Venezuela, mas não detalhou promessas ou prazos para eleições. A avaliação foi reforçada pela secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, que elogiou Machado como “voz notável e corajosa”, mas disse que o encontro não alterou a “avaliação realista” de Trump sobre sua viabilidade política no país.

Trump tem indicado abertura para dialogar com a presidente interina Delcy Rodríguez, ex-número dois de Nicolás Maduro, e evitou fixar cronograma para novos pleitos. Em declarações recentes, afirmou que seria “difícil” para Machado liderar por falta de apoio e respeito internos. O partido de Machado é amplamente apontado como vencedor das eleições de 2024, resultado rejeitado pelo chavismo.

Machado, que ficou 11 meses na clandestinidade na Venezuela e reapareceu publicamente na Noruega, onde sua filha recebeu o Nobel em seu nome, foi recebida por apoiadores nas proximidades da Casa Branca. “Podemos contar com o presidente Trump”, disse, sem apresentar detalhes.

Pressão internacional e cenário interno

Em Washington, Machado também se reuniu a portas fechadas com um grupo bipartidário de senadores. Chris Murphy (D-Conn.) afirmou que ela alertou para a necessidade de “progresso real” rumo a uma transição de poder e/ou eleições nos “próximos meses”. Ele acrescentou que Machado vê Delcy Rodríguez como “em muitos aspectos, pior que Maduro”. O senador Bernie Moreno (R-Ohio) celebrou o encontro e descreveu as ações de Trump contra Maduro como “determinantes” na região.

O governo interino venezuelano tem sinalizado cooperação com Washington, incluindo a promessa de libertar mais presos detidos sob Maduro — cinco cidadãos americanos foram soltos nesta semana. Trump disse ter tido uma “ótima conversa” com Rodríguez, a primeira desde a queda de Maduro.

No plano operacional, forças dos EUA no Caribe apreenderam mais um petroleiro sancionado ligado à Venezuela, parte do esforço para controlar a receita do petróleo do país. Duas semanas antes, Maduro e sua esposa foram capturados em Caracas por forças americanas e levados a Nova York para responder a acusações de tráfico de drogas.

Trajetória de Machado e desafios à frente

Engenheira e filha de um empresário do aço, Machado despontou em 2004 com a ONG Súmate, que tentou convocar um referendo para revogar o mandato de Hugo Chávez. Em 2005, provocou reação do chavismo ao se encontrar com o então presidente americano George W. Bush. Em 2024, liderou uma mobilização massiva contra a reeleição de Maduro, contestada por evidências consideradas credíveis de fraude e seguida por repressão a protestos.

Apesar do gesto de alto impacto midiático com a medalha do Nobel, o encontro na Casa Branca não trouxe compromissos concretos sobre eleições ou transição. Trump manteve tom cauteloso sobre o papel de Machado, enquanto estreita contatos com Delcy Rodríguez e sustenta pressão econômica e jurídica sobre a estrutura remanescente do chavismo.

Ponto de atenção para brasileiros nos EUA: a evolução do quadro venezuelano pode afetar fluxos migratórios, mercado de energia e debates de política externa em Washington — temas que tendem a ganhar espaço nos próximos meses.

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