As duas primeiras semanas de 2026 trouxeram um noticiário pesado: captura do presidente da Venezuela pelo governo Trump, ameaça de resposta a repressões no Irã e fala sobre uso de força para tomar a Groenlândia. Mesmo assim, as bolsas avançam. O S&P 500 acumula alta de cerca de 1,5% no ano, o Dow Jones sobe perto de 3% e o Nasdaq avança 1,2%. Na Europa, o Stoxx 600 ganha quase 4%. Na Ásia, o MSCI AC Asia Pacific sobe mais de 5% e renova recorde; Nikkei 225 (Japão) e Kospi (Coreia do Sul) também bateram máximas.
O que explica a aparente “indiferença”? Analistas citam três fatores: ausência de choque econômico imediato (especialmente no petróleo), leitura de que as ações militares são pontuais e sem escalada prolongada, e uma priorização de fundamentos — juros, crescimento e lucros — acima do ruído geopolítico.
Mercados “reagem ao que mexe no caixa”
Gestores dizem que o investidor hoje separa evento geopolítico de impacto econômico concreto. Sem resposta forte de outras potências e sem interrupção relevante de comércio ou energia, a precificação migra para o básico: trajetória de juros nos EUA, crescimento, tecnologia e resultados corporativos.
– Petróleo: sem choque significativo de oferta, o canal clássico de transmissão de crises para as bolsas segue contido.
– Dólar: o índice DXY avança cerca de 1% no ano — sinal de que não há corrida por proteção além do normal.
– Política monetária e IA: expectativa de cortes de juros nos EUA e continuidade dos investimentos em inteligência artificial sustentam projeções de lucros.
Para casas como Northern Trust e Invesco, “mercados são frios”: reagem de forma sustentada apenas quando eventos alteram fundamentos ou políticas públicas. Historicamente, após picos de risco geopolítico, ações tendem a performar bem nos 12 meses seguintes — desde que não haja mudança estrutural em comércio, energia ou crédito.
Ruído, não tendência — mas com gatilhos
Profissionais ouvidos pelo mercado apontam que o padrão recente tem sido de “eventos curtos e definidos”, sem compromisso militar prolongado. Isso dá pouco material para reprecificação ampla. Além disso, há um “acostumar-se” com declarações e recuos rápidos: investidores esperam por fatos com impacto mensurável antes de reposicionar carteiras.
Ainda assim, há gatilhos que podem virar o jogo:
– Irã: é o “coringa”. Um evento que afete diretamente produção ou transporte de petróleo tende a provocar alta do Brent, queda de ações e corrida para ouro.
– Comércio e tarifas: decisão iminente da Suprema Corte dos EUA sobre a legalidade das tarifas pode mexer em cadeias globais. Linhas claras que afetem comércio em um mundo mais fragmentado seriam relevantes para preços de ativos.
– Groenlândia e OTAN: se a disputa evoluir para confronto real dentro do ecossistema da aliança, a percepção de risco europeu pode subir.
No momento, a leitura dominante é de risco crônico, não choque agudo. Sem valuations esticados em partes da Ásia e com estímulos em horizonte (monetários e setoriais), a bolsa permanece ancorada em fundamentos. Em resumo: enquanto não houver choque em petróleo, comércio ou crédito, o investidor global mantém foco em juros, crescimento, lucros — e na temporada de resultados — deixando a geopolítica em segundo plano.
Para brasileiros nos EUA:
– Câmbio: dólar firme tende a manter remessas mais caras.
– Bolsa: exposição a tech e IA segue favorecida por expectativas de lucros.
– Energia: sem estresse no petróleo, pressão na bomba permanece limitada, mas eventuais escaladas no Oriente Médio podem mudar rapidamente esse quadro.
