Nações da OTAN são enviadas para a Groenlândia após tensas negociações na Casa Branca

Gabriel Piziolo
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Vários países da OTAN decidiram deslocar pequenos contingentes militares para a Groenlândia em um exercício conjunto, dias após uma reunião tensa na Casa Branca sobre o desejo dos Estados Unidos de anexar o território.

Segundo os governos envolvidos, Dinamarca — responsável pela defesa da Groenlândia —, Alemanha, França, Suécia e Noruega confirmaram o envio de militares à ilha, de população escassa e importância estratégica no Ártico. O movimento ocorre enquanto Washington reforça a argumentação de que “precisa da Groenlândia por segurança nacional”, nas palavras do ex-presidente Donald Trump, após a intervenção militar dos EUA na Venezuela, em 3 de janeiro, que derrubou Nicolás Maduro.

Reunião sem acordo e criação de grupo de trabalho

A decisão de enviar tropas foi anunciada após encontro na Casa Branca entre os chanceleres da Dinamarca e da Groenlândia com o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. Ao lado de Vivian Motzfeldt, ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, o ministro dinamarquês Lars Løkke Rasmussen falou em “discordância fundamental” com os EUA, apesar de classificar a reunião de uma hora como “franca e construtiva”. Vance e Rubio não comentaram.

Como resultado, EUA, Dinamarca e Groenlândia criaram um grupo de trabalho de alto nível para discutir o futuro do território e a segurança no Ártico. Não houve, porém, solução diplomática que reduzisse as tensões. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que a ambição americana de “tomar a Groenlândia” permanece e reiterou que um eventual ataque dos EUA ao território encerraria a própria OTAN.

Antes do encontro, Copenhague já havia anunciado reforço militar no entorno da ilha, com atividades que incluem proteção de infraestrutura crítica, envio de caças e operações navais.

Exercício “Arctic Endurance” mobiliza europeus

A operação, batizada de “Arctic Endurance” pela Dinamarca, começou a receber contribuições de aliados:

– Alemanha: o Ministério da Defesa confirmou o envio de uma equipe de reconhecimento com 13 militares para Nuuk, a convite dinamarquês, entre quinta e sábado. O objetivo é mapear contribuições futuras, como vigilância marítima.
– França: o presidente Emmanuel Macron disse que os primeiros militares franceses já estão a caminho e que outros seguirão para a operação conjunta.
– Suécia: o primeiro-ministro Ulf Kristersson informou que oficiais suecos se integrarão ao planejamento e preparação das próximas etapas do exercício.
– Noruega: confirmou participação com pessoal em apoio às atividades coordenadas por Copenhague.

Frederiksen agradeceu Rasmussen e Motzfeldt por confrontarem as pretensões americanas nas conversas em Washington e destacou que “a defesa e proteção da Groenlândia é preocupação comum de toda a OTAN”.

Pressão interna, investimento no Ártico e oposição local

Pesquisas de opinião indicam que a população da Groenlândia é amplamente contrária ao controle dos EUA e que a maioria apoia, no longo prazo, a independência da Dinamarca. Para reduzir tensões e fortalecer sua posição, o governo dinamarquês vem prometendo mais investimentos em saúde e infraestrutura na ilha e elevando gastos em defesa no Alto Norte, incluindo a compra de 16 caças F-35.

“Estamos intensificando. Alocamos quase US$ 15 bilhões nos últimos anos para capacidades no High North e pressionamos por maior engajamento da OTAN no Ártico”, disse Rasmussen. Segundo ele, porém, a reunião não mudou a posição dos EUA: “Fizemos ficar muito claro que isso não é do interesse do reino”.

Contexto para brasileiros: a Groenlândia, território autônomo sob a coroa dinamarquesa, ocupa posição estratégica entre América do Norte e Europa, com rotas aéreas e marítimas no Atlântico Norte e proximidade de rotas polares. Uma mudança de status teria impacto direto na segurança do Atlântico, na cadeia logística transatlântica e em operações de defesa que envolvem Estados Unidos, Canadá e aliados europeus.

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