Com menos de 10 meses para as eleições legislativas, o presidente Donald Trump lançou uma série de propostas econômicas com tom populista — mirando diretamente no tema que mais preocupa o eleitor: custo de vida. O movimento reacende debates dentro do Partido Republicano e aproxima a Casa Branca de pautas tradicionalmente associadas à ala progressista.
Entre as medidas anunciadas estão: um teto de 10% nos juros de cartão de crédito por um ano; barreiras para que grandes fundos de private equity comprem casas residenciais; e restrições a dividendos e recompras de ações por empresas de defesa. As propostas vieram a público após críticas sobre a inflação e a acessibilidade de crédito e moradia, e surgem em um momento em que pesquisas indicam desaprovação majoritária do desempenho econômico do governo.
Pressão eleitoral e ceticismo no Capitólio
Republicanos entram no ciclo eleitoral com maioria estreita: 218 a 213 na Câmara e 53 a 47 no Senado. Aposentadorias de membros-chave e pesquisas desfavoráveis no voto distrital e no “generic ballot” aumentam o risco de perda de controle do Congresso. Parte da estratégia do partido tem sido defender o pacote “One Big Beautiful Bill”, que cortou impostos e avançou prioridades da Casa Branca. Mas aliados mostram cautela com o novo giro populista.
Líderes republicanos descrevem Trump como “o cara das ideias” e evitam endossar integralmente o teto de juros, ecoando alertas do setor bancário de que um limite de 10% poderia restringir oferta de crédito e reduzir consumo. Outros parlamentares foram mais duros e classificaram as medidas como uma tentativa de “fugir do histórico”.
Ainda assim, a campanha de Trump sustenta que o presidente tem mandato para “romper ortodoxias” e argumenta que a combinação de desregulação e cortes de impostos, somada a ajustes contra “políticas América por último”, seria o caminho para reduzir custos.
Convergências improváveis e impacto prático
Algumas propostas de Trump se alinham a ideias ventiladas por nomes democratas. O limite de juros de cartão já foi defendido por Bernie Sanders e teve versão de projeto bipartidário no Senado. No tema de moradia, a restrição à compra de casas por grandes investidores dialoga com iniciativas propostas por Kamala Harris em 2024. Parlamentares como Elizabeth Warren e Ro Khanna sinalizaram abertura para negociar, desde que o governo pressione a Câmara e dê suporte a projetos que ampliem oferta de habitação e reduzam custos.
Do lado democrata, porém, há resistência em oferecer uma vitória política a Trump a poucos meses do pleito. Líderes da bancada afirmam que políticas do governo alimentaram preços e que qualquer virada exigiria reversões mais amplas. Pesquisadores eleitorais avaliam que a Casa Branca busca um “fato novo” capaz de remodelar a percepção econômica em curto prazo — algo incerto, já que parte das medidas necessitaria de aprovação do Congresso.
No pano de fundo, assessores e aliados reconhecem que o pacote também ajuda a redirecionar o noticiário diante de temas espinhosos para o governo. Para o eleitor, a questão central permanece: se o custo de vida vai cair de forma perceptível antes de novembro. Para os republicanos no Capitólio, o desafio é equilibrar a ortodoxia pró-mercado com o apelo de propostas que falam diretamente ao bolso — sem rachar a base às vésperas das urnas.
O que observar a seguir:
– Se a Câmara dará andamento a um teto temporário de juros.
– Se haverá avanço no Congresso para limitar compras de casas por grandes fundos.
– Reação dos mercados de crédito e habitação às sinalizações da Casa Branca.
– Mudanças nas pesquisas de aprovação econômica nas próximas semanas.
