Trump sinaliza tarifas de 200% para vinhos franceses após recuo de Macron

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Donald Trump ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses em resposta à sinalização de Emmanuel Macron de que não pretende aderir ao “Board of Peace”, iniciativa proposta por Washington para tratar inicialmente do conflito em Gaza e depois expandir a outros focos de crise. A escalada reaquece tensões comerciais entre EUA e União Europeia e atinge em cheio um dos pilares de exportação da França.

“Houve isso? Ninguém o quer porque ele estará fora do cargo muito em breve”, disse Trump ao ser questionado sobre a posição de Macron. Em seguida, afirmou: “Vou colocar tarifa de 200% nos vinhos e champanhes dele e ele vai entrar, mas não precisa entrar”.

Pressão sobre Paris e ruído com a ONU

O “Board of Peace” tem gerado cautela entre governos e diplomatas, que veem risco de sobreposição com o papel das Nações Unidas. Um rascunho de estatuto enviado a cerca de 60 países prevê contribuição de US$ 1 bilhão para membros que desejarem permanecer por mais de três anos, segundo documento visto pela Reuters.

Segundo fonte próxima ao Palácio do Eliseu, Macron pretende recusar o convite. Assessores do presidente francês informaram que sua agenda em Davos se limita à terça-feira, com retorno a Paris no mesmo dia — sem ajustes para quarta, quando Trump chega à Suíça. Em outro gesto de pressão, o americano divulgou uma mensagem privada de Macron na qual o francês dizia não entender a postura dos EUA sobre a Groenlândia. A França terá eleição presidencial em 2027.

Um assessor de Macron afirmou que Paris tomou nota das declarações e classificou como inaceitáveis ameaças tarifárias usadas para influenciar a política externa de terceiros.

Vinhos na mira e impacto no mercado

Atualmente, vinhos e destilados da União Europeia que entram nos EUA pagam tarifa de 15% — taxa que Paris tenta reduzir a zero desde que Trump e Ursula von der Leyen anunciaram um acordo comercial EUA-UE no verão passado, na Escócia. Os EUA são o maior mercado para vinhos e bebidas espirituosas da França, com exportações de 3,8 bilhões de euros em 2024.

A simples ameaça já mexeu com o mercado: ações da LVMH — dona de marcas como Moët & Chandon — caíam cerca de 2% no início do pregão. Para Laurence Whyatt, chefe de pesquisa de bebidas europeias do Barclays, o ambiente de incerteza tende a frear investimentos: empresas devem “segurar caixa” e adiar decisões para atravessar “tempestades” futuras.

A FEVS, entidade que representa exportadores de vinhos e destilados da França, pediu serenidade, mas reforçou que a resposta deve ser coordenada no nível europeu. O setor já havia sofrido queda de 20% a 25% nas vendas aos EUA na segunda metade do ano passado após medidas tarifárias anteriores.

UE avalia contra-ataque e instrumento anti-coerção

A União Europeia estuda uma resposta tarifária de 93 bilhões de euros e considera acionar o “Instrumento Anti-Coerção” do bloco para reagir a ameaças relacionadas também a disputas sobre a Groenlândia. “É brutal, um instrumento de chantagem”, disse a ministra francesa da Agricultura, Annie Genevard, à TF1. “Temos ferramentas; os europeus precisam agir. Não podemos permitir essa escalada.”

Trump já havia ventilado a tarifa de 200% sobre vinhos e outras bebidas europeias em março do ano passado, no auge de tensões transatlânticas. Agora, o movimento volta ao centro do tabuleiro, cruzando comércio, diplomacia e segurança internacional — com impacto direto para produtores franceses e para consumidores nos EUA.

Para brasileiros nos Estados Unidos, eventual tarifa pode encarecer rótulos franceses em restaurantes e lojas, deslocar demanda para vinhos americanos e latino-americanos e reconfigurar cartas e estoques no varejo especializado. Operadores de importação e restaurantes devem se preparar para volatilidade de preços e possíveis ajustes rápidos na oferta.

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