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Orcas viram tubarões-brancos jovens de barriga para cima e arrancam o fígado, diz estudo

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Um grupo de orcas foi filmado caçando tubarões-brancos jovens no Golfo da Califórnia, no México: as orcas viram o tubarão de barriga para cima, tiram o fígado e abandonam o resto do corpo. O comportamento foi descrito em um estudo publicado em 3 de novembro de 2025, há quase um ano, na revista científica Frontiers in Marine Science, a partir de vídeos e fotos de agosto de 2020 e de agosto de 2022.

Os pesquisadores documentaram duas caçadas que mataram três tubarões-brancos, todos com cerca de 2 metros. Segundo o artigo, é o segundo registro no mundo de orcas atacando tubarões-brancos jovens e o primeiro em águas mexicanas de que os autores têm conhecimento. Não há registro novo desde a publicação: a TV Connect não encontrou avistamento ou estudo mais recente sobre esse grupo até a madrugada deste domingo (25).

O que mostram as imagens

No primeiro ataque, em 15 de agosto de 2020, por volta das 15h, cinco orcas fêmeas foram avistadas no sudoeste do Golfo da Califórnia, segundo o artigo. Eram quatro subadultas, de cerca de 4 metros, e uma adulta, de cerca de 6 metros. O tubarão tinha cerca de 2 metros.

Tubarão-branco adulto nada em meio a um cardume perto da Ilha Guadalupe, no Pacífico mexicano, em 2006 (imagem ilustrativa; animal maior que os do estudo)
Tubarão-branco adulto nada em meio a um cardume perto da Ilha Guadalupe, no Pacífico mexicano, em 2006 (imagem ilustrativa; animal maior que os do estudo). Foto: Terry Goss/Wikimedia Commons (CC BY 2.5)

As orcas empurram o tubarão para a superfície, e duas delas se revezam para mantê-lo de barriga para cima. Depois de mergulharem, voltam à tona com o fígado do tubarão, que tem dois lobos, na boca de uma delas. O órgão passa de uma orca para outra. Um leão-marinho tenta pegar um pedaço, mas as orcas o afastam soltando bolhas, segundo o estudo. Minutos depois, o grupo ataca um segundo tubarão-branco jovem, também de cerca de 2 metros. O fígado aparece parcialmente exposto e o tubarão, imóvel, começa a afundar.

O segundo ataque foi em 3 de agosto de 2022, no mesmo local. Cerca de cinco orcas, um macho adulto, uma fêmea adulta, dois subadultos e um filhote, atacam um tubarão-branco jovem. O animal sangra pelas brânquias, com o fígado exposto. O macho e o filhote comem pedaços do fígado na superfície, e aves como atobás, gaivotas, pelicanos e fragatas aproveitam os restos.

As imagens foram cedidas por Marco Villegas e Erick Higuera, segundo a Frontiers. Higuera, biólogo marinho, diretor de projetos das organizações Conexiones Terramar e Pelagic Life, é o autor principal do estudo. Reportagens sobre o estudo, como a da revista Smithsonian, situam as caçadas perto de La Paz, na Baixa Califórnia do Sul.

Por que virar o tubarão

Virado de barriga para cima, o tubarão pode entrar em imobilidade tônica, um estado temporário parecido com uma paralisia, que pode durar de menos de um minuto a várias horas, segundo o artigo. Os autores escrevem que as orcas viraram os tubarões em dois dos três ataques, "possivelmente induzindo imobilidade tônica", talvez para evitar mordidas. A mordida de um tubarão-branco de 2,5 metros pode chegar a 3.131 newtons e ferir gravemente o predador, segundo um estudo citado no artigo.

"Esse estado temporário deixa o tubarão indefeso, permitindo que as orcas retirem o fígado, rico em nutrientes, e provavelmente consumam outros órgãos também, antes de abandonar o resto da carcaça", explicou Higuera, no comunicado da Frontiers. Segundo o artigo, as orcas mantiveram os tubarões de cabeça para baixo por vários minutos, tiraram e comeram o fígado e descartaram o resto. O órgão é dividido entre os membros do grupo, inclusive os filhotes.

"Esse comportamento é uma prova da inteligência avançada das orcas, do pensamento estratégico e de um aprendizado social sofisticado, já que as técnicas de caça passam de geração em geração dentro dos grupos", disse Higuera.

O grupo Moctezuma

Os autores chamam o grupo de "Moctezuma", por causa do macho adulto. Pelas marcas nas nadadeiras dorsais, eles identificaram três das fêmeas do ataque de 2020: duas tinham sido vistas em 2018 caçando raias, e a terceira caçou tubarões-touro entre 2022 e 2023. Segundo a Frontiers, o grupo também já foi visto caçando tubarões-baleia.

Há uma ressalva no próprio artigo: no ataque de 2022, as orcas não foram fotografadas para identificação, e não se sabe se eram do mesmo grupo.

Por que no Golfo da Califórnia

O tubarão-branco tem um só predador natural conhecido no oceano, a orca, segundo o artigo. Interações entre as duas espécies já foram registradas na África do Sul, na Austrália e na Califórnia. O único caso anterior com um tubarão-branco jovem, de cerca de 2,5 metros, foi em Mossel Bay, na África do Sul.

Baía de La Paz, no Golfo da Califórnia, vista do espaço em imagem da NASA, com a cidade de La Paz à direita
Baía de La Paz, no Golfo da Califórnia, vista do espaço em imagem da NASA, com a cidade de La Paz à direita. Foto: NASA/Johnson Space Center (domínio público)

No Golfo da Califórnia, as orcas são avistadas com frequência o ano todo, e um levantamento reuniu 38 registros de tubarões-brancos entre 1964 e 2010, de acordo com o estudo. Para os autores, fenômenos como o El Niño parecem ter alterado as áreas de berçário dos tubarões-brancos e aumentado a presença deles no golfo, o que deixaria os jovens mais expostos às orcas. A TV Connect já mostrou uma orca gigante na costa de Los Angeles e um tubarão-branco que saltou na hora da foto de um banhista, na Califórnia.

"É a primeira vez que vemos orcas mirarem repetidamente tubarões-brancos jovens", disse Salvador Jorgensen, da Universidade Estadual da Califórnia em Monterey Bay, coautor do estudo. "Tubarões-brancos adultos reagem rápido às orcas caçando, abandonam totalmente as áreas onde se reúnem na temporada e não voltam por meses. Mas esses tubarões-brancos jovens podem não conhecer as orcas."

O que ainda falta saber

Os autores escrevem que os tubarões-brancos jovens podem estar se tornando, ou já ser, uma presa sazonal regular dessas orcas, o que seria uma pressão a mais sobre as populações da espécie. A Frontiers ressalta que, por enquanto, são só observações. Os cientistas planejam um levantamento detalhado da dieta dessas orcas, mas, segundo o comunicado, o trabalho de campo é caro e as caçadas são imprevisíveis.

"Até agora, só vimos esse grupo se alimentar de elasmobrânquios", disse a coautora Francesca Pancaldi, do Centro Interdisciplinar de Ciências Marinhas do Instituto Politécnico Nacional do México, referindo-se a tubarões e raias. "Pode haver mais."

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