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Flávio Bolsonaro (PL) chega ao segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, na frente de Lula. No primeiro turno, realizado no dia 4, o senador fluminense terminou à frente do atual presidente por cerca de 47% a 45% dos votos válidos, resultado que inverteu a tendência apontada pela maioria das pesquisas ao longo do ano. Levantamentos mais recentes da Quaest e do Datafolha mostram Flávio dois pontos à frente de Lula, dentro da margem de empate técnico.
Caso a vantagem se confirme nas urnas, a expectativa entre aliados e analistas é de que a relação entre Brasil e Estados Unidos passe pela mudança de tom mais rápida desde 2019, ano em que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência.
O cartão de visitas: Salão Oval e "diferença gritante"
Flávio já deu sinais de como pretende conduzir a relação bilateral caso seja eleito. Em 26 de maio, foi recebido por Donald Trump no Salão Oval, em um encontro que não constava da agenda oficial divulgada pela Casa Branca. Após a reunião, o senador afirmou ter apresentado ao presidente americano a "diferença gritante" entre seu projeto político e o governo Lula, defendendo que o Brasil precisa de parcerias que gerem emprego, investimento, tecnologia e segurança, em vez de, segundo ele, "alinhamentos ideológicos" com regimes autoritários.
Na mesma ocasião, Flávio pediu que os Estados Unidos classificassem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas e prometeu que, se eleito, o Brasil aderiria ao "Escudo das Américas", iniciativa do governo Trump voltada ao combate ao narcotráfico e à imigração ilegal. O programa de governo do senador também destaca a intenção de ampliar laços com Estados Unidos, Israel e a Argentina de Javier Milei.
A principal promessa de campanha de Flávio é usar a afinidade pessoal com Trump como ativo diplomático, algo que, segundo seus aliados, nenhum outro candidato nesta eleição poderia oferecer da mesma forma.
Tarifas: o primeiro teste prático
O comércio deve ser o primeiro termômetro de um eventual governo Flávio. O Brasil enfrenta atualmente uma tarifa adicional de 25% decorrente de investigação sob a Seção 301 da legislação americana, em vigor desde julho. Flávio afirma já ter pedido diretamente a Trump e ao secretário de Estado Marco Rubio que o Brasil não fosse taxado, e seus aliados esperam que um governo alinhado a Washington consiga, no mínimo, abrir uma negociação mais rápida sobre o tema.
O obstáculo, porém, é técnico. Diferentemente da sobretaxa aplicada em 2025, abertamente vinculada ao processo contra Jair Bolsonaro, a tarifa de 2026 foi justificada por práticas comerciais específicas: o sistema de pagamentos Pix, a tarifa de 18% cobrada pelo Brasil sobre o etanol americano, regras de regulação digital, patentes e desmatamento.
Isso significa que um alívio tarifário amplo provavelmente exigiria contrapartidas concretas, como redução da tarifa sobre o etanol, mudanças nas regras aplicadas às big techs ou ajustes no ambiente de pagamentos digitais. Cada uma dessas concessões encontraria resistência de setores econômicos e do Congresso brasileiro, além de, no caso do Pix, da própria popularidade da ferramenta entre os brasileiros.
Segurança e defesa ganham peso na agenda
É na área de segurança pública que a mudança de rumo tende a ser mais visível. A adesão à moldura americana que trata facções criminosas como organizações terroristas, somada à entrada no Escudo das Américas, aproximaria o Brasil de outros países da região que já fecharam acordos de cooperação militar e policial com Washington.
Defensores dessa aproximação veem nela a possibilidade de acesso a inteligência, tecnologia e financiamento para o combate ao crime organizado. Já críticos, como o jornalista Jamil Chade, cobram de Flávio respostas sobre os limites dessa cooperação, incluindo se ela poderia envolver presença de tropas americanas em território nacional, além de questionamentos sobre a permanência do Brasil no Tribunal Penal Internacional.
O equilíbrio delicado com a China
Apesar da ênfase na relação com Washington, Flávio tem evitado prometer um rompimento com Pequim. Seu plano de governo prevê que o Brasil negocie "com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia", e o próprio senador descreve sua política externa como "pragmática".
O motivo é direto: a China é hoje o maior comprador do agronegócio brasileiro, setor que forma parte importante da base eleitoral do candidato. O teste real dessa posição deve aparecer em temas nos quais os Estados Unidos pressionam por escolhas mais claras, como tecnologia, infraestrutura e o posicionamento do Brasil no Brics, bloco que o país ajudou a fundar e que um eventual governo Flávio poderia esvaziar politicamente, mas dificilmente abandonaria por completo.
O fator Bolsonaro e a frente interna
A variável mais sensível de um possível governo Flávio é doméstica. Jair Bolsonaro está preso, condenado pelo Supremo Tribunal Federal, e o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos, já afirmou publicamente que o irmão, se eleito, concederia indulto ao pai.
Uma medida nesse sentido provocaria um choque institucional com o STF, o mesmo tribunal cujo ministro Alexandre de Moraes foi alvo de sanções do governo Trump. Para Washington, a libertação de Bolsonaro poderia ser interpretada como um desfecho positivo. Já para investidores e parceiros europeus, o conflito entre os Poderes no Brasil representaria um fator de instabilidade.
Há ainda uma discussão sobre coerência política. Analistas e adversários de Flávio lembram que o primeiro tarifaço contra o Brasil nasceu de articulações de aliados bolsonaristas nos Estados Unidos, e uma coluna de opinião chegou a classificar como "submissão" a carta enviada pelo senador ao secretário Marco Rubio. Flávio rejeita essa leitura e afirma que sua aproximação com Washington busca justamente evitar novas sanções ao país.
Chama atenção o fato de que, no segundo turno, Trump evitou declarar apoio formal ao candidato. Segundo a imprensa, a decisão teria sido combinada entre a Casa Branca e a própria campanha de Flávio, para não alimentar discursos sobre interferência estrangeira na eleição brasileira.
O que isso significa para os brasileiros nos EUA
Para a comunidade brasileira nos Estados Unidos, a principal mudança esperada seria de clima diplomático. Um governo brasileiro com canal direto com a Casa Branca tende a reduzir episódios de atrito entre os dois países, como a revogação de vistos de autoridades e a troca de notas duras entre chancelarias.
Isso não significa, no entanto, mudanças automáticas na política migratória americana, que segue prioridades internas definidas em Washington, independentemente de quem ocupe a Presidência no Brasil. Para empresas que operam entre os dois países, a expectativa seria de negociações comerciais mais ágeis, ainda que dependentes de concessões que precisariam ser aprovadas pelo Congresso brasileiro.
Dois lados da aposta
Apoiadores de Flávio sustentam que o alinhamento com Estados Unidos, Israel e Argentina recolocaria o Brasil no eixo das democracias ocidentais, destravaria investimentos e daria ao país acesso privilegiado à maior economia do mundo.
Adversários argumentam que a dependência de uma relação pessoal com Trump é frágil, que interesses familiares poderiam se misturar à condução da política externa e que concessões em temas como Pix e etanol teriam custo direto para a economia brasileira.
A decisão final está nas mãos do eleitor em 25 de outubro. Os números do primeiro turno e das pesquisas eleitorais citados nesta reportagem refletem dados divulgados até 17 de outubro de 2026.
