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Se Lula vencer: o que esperar da relação Brasil-EUA

7 min de leitura
Nesta matéria

A oito dias do segundo turno, a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) chega empatada dentro da margem de erro. Flávio terminou o primeiro turno, em 4 de outubro, à frente, com cerca de 47% dos votos válidos contra 45% de Lula, mas as primeiras pesquisas da reta final, feitas por Quaest e Datafolha, mostram o senador numericamente dois pontos à frente, dentro do empate técnico. Para quem acompanha a relação entre Brasil e Estados Unidos, a pergunta é direta: o que muda, ou não muda, na relação Brasil-EUA se Lula for reeleito?

A avaliação é que um novo mandato de Lula provavelmente não romperia com Washington, mas também não resolveria a crise comercial e política que marca os últimos 15 meses. O cenário mais provável é o de uma convivência pragmática, com atritos recorrentes, conduzida a partir do ponto em que as duas capitais pararam.

Dois tarifaços e diplomacia presidencial

A relação chega à eleição em um de seus momentos mais delicados das últimas décadas. Em julho de 2025, o presidente Donald Trump impôs uma sobretaxa de 50% a produtos brasileiros, somando 10% de tarifa global a mais 40% exclusivos ao Brasil. A medida foi vinculada, em carta enviada a Lula, ao julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal. Na sequência vieram sanções a autoridades brasileiras, incluindo o ministro Alexandre de Moraes.

Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou, por 6 votos a 3, as tarifas globais de Trump. Mas o governo americano encontrou outro caminho: uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, aberta em 2025, terminou em julho de 2026 com uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Os alvos declarados foram o sistema de pagamentos Pix, o acesso do etanol americano ao mercado brasileiro, a regulação de plataformas digitais, propriedade intelectual e desmatamento ilegal. A lista de exceções é longa, incluindo café, carne, suco de laranja e petróleo, mas o Brasil passou a figurar entre os países mais tarifados pelos Estados Unidos.

Nesse período, Lula apostou na diplomacia direta. Encontrou Trump na Malásia em outubro de 2025, foi recebido na Casa Branca em 7 de maio de 2026, em reunião de três horas após a qual Trump o chamou de "homem bom" e "inteligente", e voltou a telefonar ao presidente americano em agosto. Ao mesmo tempo, publicou artigo no Washington Post classificando as tarifas de "erro estratégico" e deu início aos procedimentos da Lei de Reciprocidade Econômica.

Negociação comercial por setores, com risco de escalada

Com Lula reeleito, a tendência é que o eixo da relação continue sendo comercial. O governo já indicou que Pix e etanol são inegociáveis no formato exigido pelos Estados Unidos, o que torna improvável uma retirada rápida e total da tarifa de 25%. O caminho mais plausível é uma negociação fatiada, com ampliação de exceções, concessões pontuais em temas como patentes farmacêuticas ou tarifas preferenciais, e acordos setoriais de interesse mútuo em áreas como minerais críticos, energia, aviação e agronegócio, assuntos que já aparecem com frequência nas conversas entre técnicos dos dois governos.

O risco está na escalada. Washington já avisou que reveria suas ações caso o Brasil retaliasse. Se o Planalto levar adiante a reciprocidade, a relação pode entrar em um ciclo de medida e contramedida que prejudicaria exportadores brasileiros e importadores americanos, de carnaúba a calçados e máquinas agrícolas.

A aposta de Lula é separar a divergência ideológica da relação de Estado: confronto em público, negociação em privado.

Segurança pública: ponte e também ponto de atrito

O combate ao crime organizado é a área com maior potencial tanto de cooperação quanto de conflito entre os dois países. Os Estados Unidos passaram a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, rótulo que o governo Lula rejeita por entender que a legislação brasileira já oferece instrumentos suficientes e que a classificação poderia abrir espaço para ações extraterritoriais e elevar o chamado "custo Brasil". Em um quarto mandato, a tendência é Brasília oferecer cooperação policial, de inteligência e de combate à lavagem de dinheiro, sem aderir à moldura americana de "terrorismo" nem a iniciativas militares regionais lideradas por Washington.

China, Brics e política externa sem alinhamentos automáticos

O programa de Lula defende uma diplomacia universalista, com foco no Sul Global, no Brics e na América do Sul. Na prática, isso significa manter a China como principal parceira comercial, aprofundar o Mercosul e buscar mercados alternativos, movimento que o próprio Lula já apresentou como consequência das tarifas americanas. Para Washington, esse posicionamento deve continuar sendo lido com desconfiança, sobretudo em temas como pagamentos em moedas locais, tecnologia 5G e infraestrutura financiada por Pequim.

Há, no entanto, pontos de convergência. Em agosto, os dois presidentes concordaram sobre a urgência de uma saída negociada para a guerra entre Rússia e Ucrânia. Clima, transição energética e minerais estratégicos também podem render agendas comuns, ainda que o governo Trump dê menos peso à pauta ambiental.

O fator eleitoral e o pós-25 de outubro

Um ponto sensível será a reação de Washington ao resultado das urnas. Durante a campanha, o governo brasileiro negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que pretendiam manter contato com autoridades eleitorais, e Lula chegou a acusar os Estados Unidos de tentar influenciar a disputa por meio das tarifas. No segundo turno, porém, Trump evitou declarar apoio explícito a Flávio Bolsonaro, o que, segundo a imprensa, resultou de um acordo com a própria campanha do senador. Um reconhecimento rápido da vitória de Lula pela Casa Branca seria o primeiro termômetro de como será o novo ciclo.

Há ainda o calendário americano: as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em 3 de novembro, podem redefinir a margem de manobra de Trump no Congresso e, indiretamente, o espaço para acordos comerciais com o Brasil.

O que isso significa para os brasileiros nos EUA

Para a comunidade brasileira nos Estados Unidos, um governo Lula tende a significar continuidade: relações consulares funcionando normalmente, mas sem expectativa de flexibilização nas regras migratórias americanas, que seguem uma agenda doméstica de Washington independentemente de quem governa o Brasil. Empresários que importam ou exportam entre os dois países devem se preparar para um período prolongado de incerteza tarifária, com possíveis alívios setoriais, mas sem uma solução ampla no curto prazo.

Visões divergentes sobre a crise

Críticos do governo argumentam que a postura de confronto público de Lula, incluindo artigos na imprensa americana, ameaça de reciprocidade e aproximação com China e Brics, contribuiu para agravar a crise e que um quarto mandato manteria o Brasil isolado de seu segundo maior parceiro comercial. Aliados do presidente respondem que as tarifas foram motivadas por pressões políticas ligadas ao caso Bolsonaro e que ceder em temas como Pix e regulação digital significaria abrir mão de soberania.

O eleitor decide em 25 de outubro qual dessas leituras prevalece. Os números do primeiro turno e das pesquisas citados nesta matéria refletem dados divulgados até 17 de outubro de 2026.

Para entender o cenário caso o resultado seja outro, leia também Se Flávio Bolsonaro vencer: o que muda na relação Brasil-EUA.

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