Nesta matéria
Em áreas rurais do leste do Nebraska, planos para construir novos data centers voltados à expansão da inteligência artificial têm gerado uma resistência que atravessa as divisões partidárias tradicionais nos Estados Unidos. Na pequena vila de Murdock, com cerca de 275 habitantes, fazendeiros conservadores e a seção estadual do Sierra Club encontraram pontos em comum com líderes sindicais durante uma reunião na sede do corpo de bombeiros local para discutir preocupações sobre o ritmo acelerado do desenvolvimento desses projetos.
Segundo reportagem da Associated Press, o episódio ilustra uma coalizão pouco usual, formada por pessoas preocupadas com a redução de áreas agrícolas, a queda nas reservas de água e o aumento nas contas de energia elétrica, além do temor de que grandes corporações transformem pequenas cidades americanas em peças de uma rede nacional de computação.
O debate sobre data centers é apontado como um dos raros temas atuais capazes de cruzar linhas partidárias, demográficas e geográficas, presente tanto em estados republicanos como Nebraska, Texas e Wyoming quanto no Novo México, de maioria democrata, e na Pensilvânia, considerada um estado pêndulo.
Apoiadores dos data centers, entre eles o presidente republicano Donald Trump e alguns líderes sindicais historicamente alinhados aos democratas, defendem o potencial de geração de empregos e crescimento econômico, além do papel desses projetos na disputa tecnológica dos Estados Unidos com a China. Ainda assim, a hostilidade ao avanço acelerado das obras cresceu às vésperas das eleições de meio de mandato de novembro, levando autoridades federais, estaduais e locais a se adaptarem a um cenário político em transformação.
Judy Stroy, fazendeira de quinta geração no Nebraska, cujo marido já falecido cultivava milho e soja e cujo filho segue na atividade, afirmou temer que a perda contínua de terras agrícolas ameace a fonte de alimentos da região.
Municípios freiam expansão nos EUA
As terras de Stroy ficam nos arredores de Murdock, no condado de Cass, onde autoridades aprovaram recentemente uma moratória de 12 meses para novos empreendimentos de data centers. A medida pode suspender planos da empresa de energia Tenaska, que avaliava a possibilidade de arrendar mais de 1.300 acres de terra ao longo da Rodovia 75, entre as vilas de Murray e Beaver Lake. Ativistas temem que o projeto abra caminho para um data center com usina própria de gás natural.
Em nota, a porta-voz da Tenaska, Leighton Elise Eusebio, disse que a empresa avalia a viabilidade de desenvolver geração de energia para grandes cargas, seja para data centers ou outras formas de desenvolvimento econômico, e afirmou acreditar em oportunidades de trabalho conjunto com o setor público, comunidades e outras partes interessadas.
Já a operadora de data centers CyrusOne mantém controle sobre quase 400 acres próximos a Plattsmouth, também no condado de Cass, mas nenhum projeto foi anunciado até o momento, segundo porta-voz da empresa. A região é vista como estratégica por conta da proximidade com Omaha e Lincoln e pelo acesso a água do Rio Missouri.
Segundo moradores, terras que costumam valer cerca de 10 mil dólares por acre têm recebido ofertas de desenvolvedores até quatro vezes maiores. Esses valores se tornam ainda mais atrativos em um momento de custos agrícolas crescentes, com alta no preço do diesel e queda nas exportações de soja em meio à disputa tarifária de Trump com a China, um dos principais mercados compradores do grão. Stroy admitiu que uma oferta de 40 mil dólares por acre seria difícil de recusar.
O advogado do Sierra Club no Nebraska, Ken Winston, observou que empresas de tecnologia já fizeram doações a programas municipais em Lincoln para mitigar impactos dos data centers. Para ele, é preciso reconhecer que esses empreendimentos vão se instalar em algum lugar, mas as comunidades também devem ter o direito de recusá-los quando não os desejarem.
Projeto bilionário divide o Novo México
Diferentemente de Cass County, o Novo México não tem moratória em vigor que possa barrar o Project Jupiter, complexo de data centers avaliado em 165 bilhões de dólares planejado perto da fronteira com o México. Ainda assim, a preocupação com a escassez de água tem crescido no estado.
Samantha Barncastle Salopek, advogada especializada em direito das águas e candidata republicana a uma cadeira na comissão do condado de Doña Ana, disse que o tema não se resume a uma disputa entre estados azuis ou vermelhos, mas a uma reação da comunidade local diante da falta de informações sobre o projeto, justamente quando a região já precisa reduzir seu próprio consumo de água. Barncastle Salopek, cuja família cultiva nozes-pecã, afirmou receber ligações frequentes de fazendeiros, criadores e comerciantes de diferentes posições políticas, inclusive de outros estados, preocupados com a disputa pelos recursos hídricos remanescentes.
O Novo México enfrenta seca persistente, com trechos do Rio Grande secos na porção central do estado. O maior reservatório da região opera com apenas 1,3% de sua capacidade, nível mais baixo desde o início dos anos 1970, mesmo com o estado obrigado a fornecer mais água ao Texas conforme acordo recentemente validado pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Ativistas temem que plantações de nozes-de-pecã, pimentas e outras culturas possam desaparecer, levando junto escolas, hospitais e negócios que dependem delas.
A Oracle, responsável pelo anúncio do Project Jupiter, ofereceu recursos para programas voltados a jovens e prometeu investir 50 milhões de dólares em sistemas de água e esgoto no condado de Doña Ana. A empresa também planeja firmar parceria com uma companhia de tecnologia agrícola para instalar sensores que forneçam dados em tempo real a produtores, com uma economia estimada de 21 milhões de galões de água por ano.
Um porta-voz da Oracle classificou o projeto como um investimento geracional para o Novo México, afirmando que ele deve gerar 4,7 bilhões de dólares em impostos, além de mais de 7 mil empregos na construção e 1.500 postos permanentes, com sistemas de resfriamento em circuito fechado e células de combustível projetados para reduzir o consumo de água ao longo de 15 anos.
Apesar disso, o Center for Biological Diversity apresentou uma petição de emergência à Suprema Corte do Novo México contestando a autorização estadual para perfuração de poços destinados a fornecer milhões de galões de água para a construção do Project Jupiter. No domingo, a Corte concedeu o pedido e suspendeu a autorização para uso de água de um novo poço até que o litígio seja concluído.
Durante um protesto recente na capital Santa Fe, o manifestante Jesus Rodriguez, que viajou mais de quatro horas desde sua pequena propriedade no sul do estado, disse acreditar que o dinheiro passou a comandar as decisões políticas, independentemente do partido, e que o interesse maior estaria voltado ao poder e ao lucro, não à terra.
Sindicatos veem oportunidades de emprego
Nem todos os setores enxergam os data centers como ameaça. Mike Gage, presidente e secretário-tesoureiro da AFL-CIO no Nebraska, afirmou se preocupar pessoalmente com a substituição de trabalhadores por inteligência artificial, mas destacou que os centros também podem gerar empregos na construção e postos de longo prazo na operação das instalações. Gage citou como exemplo um data center construído décadas atrás em Council Bluffs, no Iowa, que ainda emprega cerca de 60 pessoas.
Heather McKenzie, que atua com relações trabalhistas em Lincoln, disse acreditar que mais data centers no Nebraska podem ajudar a conter a saída de jovens qualificados do estado, defendendo que o público em geral ainda não compreende o potencial de geração de bons empregos ligado a esses projetos.
Já Chris Backemeyer, candidato democrata ao Congresso pelo distrito que inclui Murdock e ex-funcionário do Departamento de Estado, relatou preocupação com ofertas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos para sediar data centers a serviço dos Estados Unidos, o que poderia concentrar tecnologia sensível fora do território americano.
Trump defende os projetos, mas parte dos republicanos hesita
Trump tem alertado para os avanços tecnológicos da China, e o presidente republicano da Câmara, Mike Johnson, chegou a classificar uma eventual pausa federal na construção de data centers como um cenário perigoso. Ainda assim, pesquisa da Fox News realizada em julho apontou que a maioria dos eleitores registrados se opõe à instalação de data centers em suas regiões, incluindo 60% dos republicanos e 53% dos eleitores identificados com o movimento MAGA.
A governadora democrata de Nova York, Kathy Hochul, determinou uma proibição de um ano para grandes data centers. Já o governador democrata da Pensilvânia, Josh Shapiro, afirmou que sua administração deixará de priorizar projetos do tipo na concessão de licenças de construção ou isenções fiscais, caso não atendam a determinados critérios. No Texas, o governador republicano Greg Abbott anunciou a suspensão de aprovações para novos data centers até que auditorias avaliem o impacto sobre a rede elétrica estadual. Em entrevista à ABC News, Abbott disse que as empresas do setor não colaboraram com autoridades estaduais e locais e atribuiu a elas a responsabilidade pela reação negativa que enfrentam.
O comitê de campanha do Senado do Partido Republicano chegou a elaborar um memorando interno sobre como lidar com o tema, preocupado com sua influência em disputas eleitorais em Ohio. Em Wyoming, o secretário de Estado Chuck Gray, republicano candidato a uma vaga aberta na Câmara, prometeu barrar novas construções, afirmando em um anúncio de campanha que empresas de tecnologia deveriam buscar outro lugar para expandir seus empreendimentos. Postura semelhante apareceu em propaganda da prefeita democrata de Scranton, na Pensilvânia, Paige Cognetti, que concorre contra o deputado republicano Rob Bresnahan em um distrito disputado.
Trump, por sua vez, mantém a defesa dos projetos, afirmando que eles representam empregos, dinheiro e redução de impostos para as comunidades, embora tenha reconhecido que empresas de tecnologia e desenvolvedores poderiam se beneficiar de mais trabalho de relações públicas. Para conter temores sobre aumento nas tarifas de energia, o presidente afirmou que seu governo tem incentivado data centers a construir suas próprias usinas de energia.
Ainda assim, moradores da conservadora cidade de Tyler, no leste do Texas, relataram durante uma reunião recente viver sob o que descreveram como uma "nuvem de gás" provocada pela necessidade de eletricidade dos data centers. Reclamação semelhante partiu de Kardal Coleman, líder do Partido Democrata no condado de Dallas, que em um e-mail recente criticou os data centers por substituírem empregos, poluírem o ar, agravarem a crise climática e gerarem ruído que perturba vizinhanças.
