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Um grupo de orcas foi filmado caçando tubarões-brancos jovens no Golfo da Califórnia, no México: as orcas viram o tubarão de barriga para cima, tiram o fígado e abandonam o resto do corpo. O comportamento foi descrito em um estudo publicado em 3 de novembro de 2025, há quase um ano, na revista científica Frontiers in Marine Science, a partir de vídeos e fotos de agosto de 2020 e de agosto de 2022.
Os pesquisadores documentaram duas caçadas que mataram três tubarões-brancos, todos com cerca de 2 metros. Segundo o artigo, é o segundo registro no mundo de orcas atacando tubarões-brancos jovens e o primeiro em águas mexicanas de que os autores têm conhecimento. Não há registro novo desde a publicação: a TV Connect não encontrou avistamento ou estudo mais recente sobre esse grupo até a madrugada deste domingo (25).
O que mostram as imagens
No primeiro ataque, em 15 de agosto de 2020, por volta das 15h, cinco orcas fêmeas foram avistadas no sudoeste do Golfo da Califórnia, segundo o artigo. Eram quatro subadultas, de cerca de 4 metros, e uma adulta, de cerca de 6 metros. O tubarão tinha cerca de 2 metros.

As orcas empurram o tubarão para a superfície, e duas delas se revezam para mantê-lo de barriga para cima. Depois de mergulharem, voltam à tona com o fígado do tubarão, que tem dois lobos, na boca de uma delas. O órgão passa de uma orca para outra. Um leão-marinho tenta pegar um pedaço, mas as orcas o afastam soltando bolhas, segundo o estudo. Minutos depois, o grupo ataca um segundo tubarão-branco jovem, também de cerca de 2 metros. O fígado aparece parcialmente exposto e o tubarão, imóvel, começa a afundar.
O segundo ataque foi em 3 de agosto de 2022, no mesmo local. Cerca de cinco orcas, um macho adulto, uma fêmea adulta, dois subadultos e um filhote, atacam um tubarão-branco jovem. O animal sangra pelas brânquias, com o fígado exposto. O macho e o filhote comem pedaços do fígado na superfície, e aves como atobás, gaivotas, pelicanos e fragatas aproveitam os restos.
As imagens foram cedidas por Marco Villegas e Erick Higuera, segundo a Frontiers. Higuera, biólogo marinho, diretor de projetos das organizações Conexiones Terramar e Pelagic Life, é o autor principal do estudo. Reportagens sobre o estudo, como a da revista Smithsonian, situam as caçadas perto de La Paz, na Baixa Califórnia do Sul.
Por que virar o tubarão
Virado de barriga para cima, o tubarão pode entrar em imobilidade tônica, um estado temporário parecido com uma paralisia, que pode durar de menos de um minuto a várias horas, segundo o artigo. Os autores escrevem que as orcas viraram os tubarões em dois dos três ataques, "possivelmente induzindo imobilidade tônica", talvez para evitar mordidas. A mordida de um tubarão-branco de 2,5 metros pode chegar a 3.131 newtons e ferir gravemente o predador, segundo um estudo citado no artigo.
"Esse estado temporário deixa o tubarão indefeso, permitindo que as orcas retirem o fígado, rico em nutrientes, e provavelmente consumam outros órgãos também, antes de abandonar o resto da carcaça", explicou Higuera, no comunicado da Frontiers. Segundo o artigo, as orcas mantiveram os tubarões de cabeça para baixo por vários minutos, tiraram e comeram o fígado e descartaram o resto. O órgão é dividido entre os membros do grupo, inclusive os filhotes.
"Esse comportamento é uma prova da inteligência avançada das orcas, do pensamento estratégico e de um aprendizado social sofisticado, já que as técnicas de caça passam de geração em geração dentro dos grupos", disse Higuera.
O grupo Moctezuma
Os autores chamam o grupo de "Moctezuma", por causa do macho adulto. Pelas marcas nas nadadeiras dorsais, eles identificaram três das fêmeas do ataque de 2020: duas tinham sido vistas em 2018 caçando raias, e a terceira caçou tubarões-touro entre 2022 e 2023. Segundo a Frontiers, o grupo também já foi visto caçando tubarões-baleia.
Há uma ressalva no próprio artigo: no ataque de 2022, as orcas não foram fotografadas para identificação, e não se sabe se eram do mesmo grupo.
Por que no Golfo da Califórnia
O tubarão-branco tem um só predador natural conhecido no oceano, a orca, segundo o artigo. Interações entre as duas espécies já foram registradas na África do Sul, na Austrália e na Califórnia. O único caso anterior com um tubarão-branco jovem, de cerca de 2,5 metros, foi em Mossel Bay, na África do Sul.

No Golfo da Califórnia, as orcas são avistadas com frequência o ano todo, e um levantamento reuniu 38 registros de tubarões-brancos entre 1964 e 2010, de acordo com o estudo. Para os autores, fenômenos como o El Niño parecem ter alterado as áreas de berçário dos tubarões-brancos e aumentado a presença deles no golfo, o que deixaria os jovens mais expostos às orcas. A TV Connect já mostrou uma orca gigante na costa de Los Angeles e um tubarão-branco que saltou na hora da foto de um banhista, na Califórnia.
"É a primeira vez que vemos orcas mirarem repetidamente tubarões-brancos jovens", disse Salvador Jorgensen, da Universidade Estadual da Califórnia em Monterey Bay, coautor do estudo. "Tubarões-brancos adultos reagem rápido às orcas caçando, abandonam totalmente as áreas onde se reúnem na temporada e não voltam por meses. Mas esses tubarões-brancos jovens podem não conhecer as orcas."
O que ainda falta saber
Os autores escrevem que os tubarões-brancos jovens podem estar se tornando, ou já ser, uma presa sazonal regular dessas orcas, o que seria uma pressão a mais sobre as populações da espécie. A Frontiers ressalta que, por enquanto, são só observações. Os cientistas planejam um levantamento detalhado da dieta dessas orcas, mas, segundo o comunicado, o trabalho de campo é caro e as caçadas são imprevisíveis.
"Até agora, só vimos esse grupo se alimentar de elasmobrânquios", disse a coautora Francesca Pancaldi, do Centro Interdisciplinar de Ciências Marinhas do Instituto Politécnico Nacional do México, referindo-se a tubarões e raias. "Pode haver mais."
