Nesta matéria
A Weill Cornell Medicine, faculdade de medicina em Nova York, anunciou nesta sexta-feira (23) que vai receber US$ 8,2 milhões, ao longo de quatro anos, para desenvolver e testar um anticoncepcional masculino em pílula que seria tomado só antes da relação sexual. A verba é do NICHD, o instituto de saúde infantil e desenvolvimento humano que faz parte dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) do governo americano.
O remédio ainda não foi testado em seres humanos. Até agora, a ideia funcionou em camundongos, em estudos publicados em 2023. O dinheiro novo deve levar a pesquisa até o primeiro estudo em pessoas, segundo a instituição.
Como a pílula funcionaria
A pílula bloqueia uma enzima chamada adenilil ciclase solúvel, ou sAC, que o espermatozoide usa para começar a nadar depois da ejaculação. Segundo o resumo do projeto no NIH, homens sem o gene funcional dessa enzima são inférteis porque os espermatozoides não se movem.
"Desenvolvemos uma pílula anticoncepcional sob demanda que os homens tomariam 30 minutos antes do sexo", disse o farmacologista Jochen Buck, que lidera o projeto com o colega Lonny Levin, segundo o comunicado. "A pílula dá uma janela de 6 a 8 horas de proteção contra a gravidez e, depois, a fertilidade volta ao normal."
Os 30 minutos e a janela de 6 a 8 horas são a meta de uso descrita pelos pesquisadores. Esses números ainda precisam ser confirmados em testes com pessoas.
O que o teste em camundongos mostrou
Em fevereiro de 2023, a equipe publicou na revista científica Nature Communications os resultados com um composto chamado TDI-11861. Nos camundongos, uma dose deixou os machos inférteis em até 30 minutos, e uma injeção travou o movimento dos espermatozoides por até 2,5 horas.
Nesse intervalo, nenhuma fêmea ficou grávida em 52 acasalamentos com machos tratados. No grupo que recebeu uma injeção sem o remédio, as fêmeas engravidaram em 30% das vezes. O efeito passou: 24 horas depois da injeção, 93% dos acasalamentos com machos tratados geraram filhotes, segundo o artigo.
O próprio artigo descreve o TDI-11861 como um composto de pesquisa, e a Weill Cornell diz que a segunda verba da equipe serviu para refinar e testar compostos até chegar a um candidato adequado para humanos. O comunicado de 2026 não divulga o nome do composto que vai ser testado em pessoas.
Dinheiro do governo americano
No banco de dados do NIH, o projeto aparece com o nome "Levando um inibidor de ADCY10 (outro nome da sAC), anticoncepcional masculino sob demanda, para humanos". A verba foi concedida em 10 de setembro, vai até agosto de 2030 e soma US$ 2,07 milhões no primeiro ano.

Segundo o resumo do NIH, o objetivo é levar o principal candidato da equipe aos primeiros estudos de segurança em humanos. O plano inclui os estudos exigidos para pedir à FDA, a agência americana que regula remédios, autorização para testar um medicamento novo, e um primeiro estudo com doses únicas crescentes.
"A verba vai nos permitir fazer os estudos de toxicologia e segurança necessários para demonstrar que o remédio é seguro para uso em humanos", disse Buck. É a terceira verba do tipo recebida pelo laboratório de Buck e Levin, segundo a Weill Cornell.
Como vai ser o primeiro teste em pessoas
O próximo passo é um estudo de fase 1, com placebo, em homens saudáveis, segundo a Weill Cornell. Antes disso, a equipe precisa desenvolver a versão oral do remédio, definir como fabricá-lo e avaliar a segurança. A instituição não deu data para o início do estudo.
Os voluntários vão receber o remédio ou um placebo e serão acompanhados para ver se há efeitos colaterais. Amostras de esperma dos dois grupos vão medir quantos espermatozoides nadam e como se movem, e o estudo vai conferir se o efeito é mesmo temporário.
"A verba atual nos leva ao primeiro teste do nosso remédio em humanos", disse Levin. Para Peter Meinke, professor assistente de farmacologia que trabalha no projeto, a exigência é maior porque "você está dando um remédio a pessoas saudáveis, muitas vezes no auge da vida".
Por que um anticoncepcional "na hora"
Hoje, os homens só têm a camisinha e a vasectomia como opções, e cerca de metade das gestações no mundo não é planejada, segundo a Weill Cornell. Outros anticoncepcionais masculinos em estudo exigem pílula ou gel todos os dias, ou injeções de longa duração, que levam semanas para fazer efeito.
Pesquisas citadas pela instituição indicam que cerca de metade dos homens nos Estados Unidos usaria um anticoncepcional masculino. Ainda não há previsão de chegada às farmácias.
"Espero que um dia o planejamento familiar seja uma responsabilidade compartilhada, em que homens ou casais possam ir à farmácia comprar anticoncepcionais masculinos", disse Levin.
Buck, Levin e Meinke fundaram a empresa Sacyl Pharmaceuticals, que licenciou a tecnologia da Weill Cornell, e têm participação e patentes ligadas a ela, segundo o comunicado.
