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“Inaceitáveis e estúpidos”: Macron rebate comentários de líderes estrangeiros

8 min de leitura
Nesta matéria

O presidente da França, Emmanuel Macron, condenou na quarta-feira, 21 de outubro de 2026, o que chamou de "comentários inaceitáveis e também estúpidos" de líderes estrangeiros sobre os distúrbios na França. Ele falou numa entrevista coletiva em Doha, no Catar, no fim de uma viagem de trabalho ao Golfo, e a gravação foi publicada pelo Palácio do Eliseu. Sem dizer nomes, citou líderes "em campanha na região ou do outro lado do Atlântico" que, nas palavras dele, "fazem campanha nas costas da França".

Na segunda-feira (19), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tinha dito a jornalistas na Casa Branca que "Paris vai ser uma cidade muçulmana muito em breve" e atribuído a violência na França à imigração, como a TV Connect USA mostrou na matéria Trump diz que Paris será "cidade muçulmana"; Macron critica líderes estrangeiros. Em Doha, um jornalista perguntou se Trump estava entre os visados, segundo a agência AFP. "Entre outros", respondeu Macron.

O que Macron disse no vídeo do Eliseu

A fala veio depois de uma pergunta sobre indícios de interferência estrangeira nos distúrbios. Macron disse que seria "prudente", porque ainda receberia um relatório mais detalhado no dia seguinte, e afirmou: "Para mim, não há interferência estrangeira visível nos acontecimentos". "Por outro lado, há uma manipulação estrangeira da informação, depois deles", continuou. Essa manipulação, segundo ele, "deu origem a comentários inaceitáveis e também estúpidos da parte de muitos, inclusive de líderes estrangeiros".

O presidente afirmou que circularam "imagens de inteligência artificial que mostraram cenas que nunca aconteceram na França". "Teve gente dizendo que fomos invadidos por hordas de migrantes e de islamistas, o que é totalmente falso", disse.

Depois do "Entre outros", Macron acrescentou: "Nesses momentos, a gente vê quem ama a França e quem não ama". Mais adiante, disse: "Todas as pessoas que falam mal do nosso país neste momento são pessoas que não amam o nosso país. Então, essas pessoas me incomodam. Eu amo o meu país."

"Há gente fazendo campanha nas costas da França", afirmou. Segundo ele, são líderes "em campanha na região ou do outro lado do Atlântico" que, "às vezes, com credulidade, repetem o que há na inteligência artificial" ou reproduzem o que "certas esferas querem fazer acreditar" sobre o que aconteceu no país. "Mas eles fazem campanha nas nossas costas. Então, não precisamos disso", disse. E concluiu: "Vamos até o fim. Queremos a ordem, o respeito e fazer o nosso país avançar. Mas não dá para sair falando qualquer coisa."

A AFP e a emissora pública franceinfo interpretaram a declaração como dirigida, sem citar nomes, a Trump e ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Na terça-feira (20), Netanyahu tinha dito à emissora i24News que a França cedeu a uma "invasão do islã extremista", segundo a AFP. Até a manhã desta quinta-feira (22), a TV Connect USA não localizou resposta da Casa Branca ou de Trump à fala de Macron.

Fachada do Palácio do Eliseu, sede da Presidência da França, em Paris, em setembro de 2019 (imagem de arquivo)
Fachada do Palácio do Eliseu, sede da Presidência da França, em Paris, em setembro de 2019 (imagem de arquivo). Foto: Leynadmar / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

"Deixo que comentem": a resposta às críticas na França

Na mesma entrevista, um jornalista perguntou se Macron tinha hesitado antes de manter a viagem ao Oriente Médio e citou o ex-presidente François Hollande, que, segundo o repórter, falou naquela manhã em "crise de autoridade". "Tem muita gente para comentar, sobretudo nesses períodos. Deixo que comentem", respondeu o presidente.

Macron chamou os acontecimentos de 17 de outubro de "muito sérios", mas disse que, "felizmente", não deixaram mortos. Afirmou que decidiu manter a viagem porque "a mão não deve tremer no topo do Estado" e que falou duas vezes por dia com o primeiro-ministro e com o ministro do Interior enquanto estava fora. "Tem muita gente para comentar e muito pouca gente para assumir as responsabilidades. Eu assumo as minhas", disse.

Toque de recolher em Paris

"Foram adotadas medidas de toque de recolher, proibições de reuniões e de aglomerações", disse Macron em Doha. Segundo ele, quem quiser fazer desordem nos centros das cidades no sábado (24) será impedido. O presidente afirmou que nada disso exige o estado de emergência, que poderia ser decretado se a situação justificar.

Monumento à República na praça de mesmo nome, em Paris, ao entardecer, em novembro de 2023 (imagem de arquivo)
Monumento à República na praça de mesmo nome, em Paris, ao entardecer, em novembro de 2023 (imagem de arquivo). Foto: Gerda Arendt / Wikimedia Commons (CC0)

Em Paris, o chefe de polícia da cidade (o préfet de police) pôs em vigor um toque de recolher na Praça da República e na região de Les Halles, das 23h às 6h, "para proteger as pessoas e os bens dos riscos de violência e de saques constatados desde sábado, 17 de outubro", segundo informação publicada no site oficial da prefeitura do 6º distrito. Só moradores, trabalhadores e membros dos serviços públicos de socorro podem entrar nessas áreas.

Os primeiros decretos foram adotados na noite de segunda-feira (19), e a prefeitura de polícia (Préfecture de Police) disse que a medida vai continuar "enquanto for necessário", segundo o site francês Actu17. Na noite de quarta para quinta, o toque de recolher foi renovado, com a proibição de "toda aglomeração não declarada" perto do Palácio do Eliseu, da Assembleia Nacional, do Senado, da Avenida Champs-Élysées e das estações de trem, segundo a AFP. Foi a terceira noite seguida das duas medidas. No sábado (17), quase 2.400 pessoas foram detidas no país, segundo o Ministério do Interior. A TV Connect USA também mostrou o caso da prefeitura de Limoges, incendiada naquele dia.

O que está previsto para sábado (24)

Os coletes amarelos tinham declarado à prefeitura de polícia uma marcha para o sábado, 24 de outubro, da Praça da Bastilha até a Praça da Ópera, segundo o canal CNews. Nesta quinta-feira (22), a prefeitura de polícia informou que outra manifestação, entre a Bastilha e a Praça da Nação, organizada por iniciativa, entre outros, da central sindical CGT, "poderá acontecer", de acordo com a AFP. Já o trajeto da Bastilha à Ópera, do coletivo estudantil Interfac e de vários coletes amarelos, "será objeto de um decreto de proibição".

Também nesta quinta, depois de uma reunião com os serviços de inteligência, Macron disse que só passeatas convocadas por sindicatos serão autorizadas, em trajetos que protejam "os comércios e os prédios públicos", segundo a AFP. "A recomendação geral é que não haja manifestação nos próximos dias. Para quem quer continuar a se manifestar, quando forem organizações sindicais, os préfets (representantes do Estado nos departamentos) vão propor trajetos alternativos. Quando não forem organizações sindicais, onde for possível, vamos proibir", afirmou.

Em Lyon, a Préfecture do Rhône (representação do Estado no departamento) proibiu "toda manifestação" no sábado. O efetivo policial previsto para o dia será "20% superior" ao de 17 de outubro, disse à emissora BFMTV o ministro delegado do Interior, Jean-Didier Berger, segundo a AFP.

Coluna de Julho no centro da Praça da Bastilha, em Paris, em abril de 2021 (imagem de arquivo)
Coluna de Julho no centro da Praça da Bastilha, em Paris, em abril de 2021 (imagem de arquivo). Foto: Guillaume Flament / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Perguntas frequentes

Macron citou Trump pelo nome?
Não. Ele falou em líderes "em campanha na região ou do outro lado do Atlântico". Segundo a AFP, quando um jornalista perguntou se Trump estava entre os visados, Macron respondeu: "Entre outros".

Onde e quando foi a declaração?
Numa entrevista coletiva em Doha, no Catar, na quarta-feira, 21 de outubro de 2026, no fim de uma viagem de trabalho de Macron ao Golfo. O vídeo foi publicado pelo Palácio do Eliseu.

O que Trump tinha dito sobre a França?
Na segunda-feira (19), Trump disse a jornalistas na Casa Branca que "Paris vai ser uma cidade muçulmana muito em breve" e atribuiu a violência na França à imigração. Os detalhes estão nesta matéria.

Vai ter protesto em Paris no sábado (24)?
Segundo a AFP, a prefeitura de polícia autorizou a marcha entre a Praça da Bastilha e a Praça da Nação, organizada, entre outros, pela CGT, e vai proibir o trajeto da Bastilha à Ópera. Macron disse nesta quinta (22) que só passeatas de sindicatos serão autorizadas.

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