Nesta matéria
Ex-fumantes que usavam cigarro eletrônico todos os dias tiveram risco 56% maior de câncer de pulmão do que quem largou o cigarro de vez, segundo um estudo com mais de 4,5 milhões de adultos da Coreia do Sul publicado em junho na revista científica Nature Medicine. No mesmo grupo, o risco de morrer de câncer de pulmão foi o dobro.
Os próprios autores, liderados por pesquisadores da Universidade Nacional de Seul, ressaltam que o estudo é observacional e que "a causalidade não pode ser estabelecida". A conclusão deles é que o uso de cigarro eletrônico depois de parar de fumar "pode reduzir os benefícios de parar por completo" na prevenção do câncer de pulmão.
Como o estudo foi feito
A equipe usou dados do Serviço Nacional de Seguro Saúde da Coreia do Sul. Foram analisados 4.524.895 adultos com histórico de fumo que fizeram os exames do programa nacional de saúde do país em 2018, com registros anteriores de 2012 a 2014. Eles foram divididos em fumantes, pessoas que tinham parado havia pouco tempo (fumavam em 2012 a 2014 e tinham parado antes de 2018) e pessoas que tinham parado havia mais tempo, e foram acompanhados até dezembro de 2023.
Para o estudo, contou como usuário de cigarro eletrônico quem informou, no exame de 2018, usar o produto todos os dias. No período, o grupo todo somou 35.887 casos e 12.807 mortes por câncer de pulmão.

O que os números mostram
Na comparação com quem parou de fumar e não usava cigarro eletrônico, os ex-fumantes que usavam o produto todos os dias tiveram razão de risco ajustada de 1,56 para câncer de pulmão, o que equivale a um risco 56% maior, e de 2,00 para morte pela doença, ou seja, o dobro. Os resultados apontaram na mesma direção entre quem tinha parado havia pouco e quem tinha parado havia mais tempo, segundo o resumo do artigo.
A diferença foi maior no grupo de alto risco, pessoas de 50 a 80 anos com histórico de 20 maços-ano ou mais: razão de 1,91 para câncer de pulmão e de 1,92 para morte pela doença.
O estudo não mostra que o cigarro eletrônico seja pior do que continuar fumando. Comparados com quem seguiu no cigarro, os ex-fumantes que não usavam vape tiveram risco de câncer de pulmão 44% menor, e os que usavam, 12% menor, segundo o resumo do comentário publicado na mesma revista e divulgado pelo centro de controle do tabaco da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF). Em resposta aos revisores, os autores escreveram que seus dados "não mostram" risco maior para quem usa cigarro eletrônico depois de parar do que para quem continua fumando.
Os limites do estudo
Os autores listam limitações em trechos do artigo publicados pela revista junto com a revisão por pares. O uso de cigarro eletrônico foi informado pelos próprios participantes em questionário, o que pode levar a erros de memória e de classificação. O questionário de 2018 perguntava especificamente sobre "cigarro eletrônico", mas não tinha uma pergunta separada sobre tabaco aquecido, vendido na Coreia desde junho de 2017, e os autores reconhecem a possibilidade de confusão entre os produtos.
Em algumas análises, o número de casos entre os ex-fumantes que usavam vape foi pequeno, o que, segundo os autores, "exige interpretação cautelosa". Em uma das tabelas suplementares, por exemplo, foram 55 casos de câncer de pulmão entre quem tinha parado havia pouco e usava vape e 16 entre quem tinha parado havia mais tempo. Eles pedem estudos maiores e com acompanhamento mais longo.
Um dos revisores escreveu que os cânceres observados provavelmente são resultado de décadas de fumo e que o achado, se confirmado, indicaria que o vape reduz os benefícios de parar de fumar. Para testar se pessoas com sintomas iniciais da doença trocaram o cigarro pelo vape, os autores excluíram os casos diagnosticados no primeiro ano de acompanhamento, e os resultados "permaneceram materialmente inalterados".
Uma versão preliminar da pesquisa, com 4,33 milhões de pessoas e acompanhamento até 2021, foi apresentada em maio de 2024 no congresso da American Thoracic Society. O estudo foi financiado pelo programa nacional de controle do câncer do Ministério da Saúde da Coreia do Sul, que, segundo o artigo, não teve papel no desenho nem na análise.
O que dizem os órgãos de saúde
Segundo o CDC, a agência de saúde pública dos Estados Unidos, nenhum cigarro eletrônico é aprovado pela FDA para ajudar a parar de fumar. O CDC diz que o produto pode beneficiar adultos fumantes que não estejam grávidas se substituir completamente o cigarro, e que o uso dos dois ao mesmo tempo "não é uma forma eficaz de proteger a saúde".
Para a UCSF, os resultados reforçam a diretriz da Organização Mundial da Saúde de que apoio comportamental e remédios com eficácia comprovada devem continuar sendo a base do tratamento da dependência do tabaco.
No Brasil, a venda de cigarros eletrônicos é proibida pela resolução RDC 855/2024 da Anvisa.
